«Amor é um Fogo que Arde Sem se Ver», por A Barraca

Domingos Lobo

A Barraca estreou na Festa do Avante! o espectáculo «Amor é um fogo que arde sem se ver»

Dos grupos surgidos após o 25 de Abril de 1974, o mais constante na abordagem consequente e inventiva de uma dramaturgia virada para as questões da realidade portuguesa (mesmo quando o histórico, metaforicamente, entronca, com sageza, na análise, sadia e provocatória, das derivas contemporâneas) tem sido, sem dúvida, A Barraca (designação inspirada no célebre grupo de Garcia Lorca, La Barraca), tendo como principal encenador e dramaturgo Hélder Mateus da Costa (HMC).

De A Barraca recordo uma série de espectáculos marcantes, pela originalidade conceptual dos mesmos, pela abordagem popular e progressista das propostas, que muito contribuíram para levar ao pequeno espaço da Alexandre Herculano, primeiro, e do actual Teatro Cinearte, um público novo e ávido de contactar com um teatro desengravatado e incisivo, em textos inspirados na nossa realidade histórica e pela forma como os criadores da Companhia os desmistificavam através da sátira.

Estão neste registo espectáculos como Ao Qu’isto Chegou, uma colagem de textos de vários autores portugueses contemporâneos, com encenação de Augusto Bual; Zé do Telhado, de HMC, que contou com a música de José Afonso; D. João VI, também de HMC, com uma interpretação antológica de Mário Viegas; Fernão, Mentes?, a partir de A Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto; A Claraboia, que João Paulo Guerra adaptou do romance homónimo de José Saramago; entre dezenas de outros de igual jaez. Refira-se ainda, a notável interpretação de Maria do Céu Guerra, do texto de Gil Vicente O Pranto de Maria Parda, que lhe mereceu em 1992 o prémio de “melhor actriz”, atribuído pela UNESCO, durante a Expo92 de Sevilha. Não será excesso considerarmos que pelo espaço do Avanteatro têm passado todos os anos, nos apenas três dias da nossa Festa, uma mostra do melhor que se vem produzindo pelo país em termos teatrais. Este ano repetiu-se esse desiderato. Logo no dia inaugural da Festa o espaço do Avanteatro foi curto para tanto público que queria assistir à estreia da peça Amor é Um Fogo que Arde Sem se Ver, de HMC, pela Barraca, que o próprio autor encenou com Maria do Céu Guerra. Foi um grande e auspicioso momento de teatro.

Contando com um elenco jovem e talentoso, os encenadores imprimiram à implantação cénica uma ágil e dinâmica concepção de movimento, processo que muito ficou a dever aos desenhos corporais de Susana Alves Costa e a uma inusual abordagem de um texto que nos dá a ver um Camões humano, febril, aventureiro e apaixonado, longe do poeta anquilosado de que a ditadura se serviu para criar o estigma da raça superior, dos heróis míticos, num processo de subversão da realidade, tão caro aos regimes fascistas. O Camões que H.M.C. e Céu Guerra nos revelam nesta peça, nada tem a ver com a narrativa passadista e bolorenta que os próceres da ditadura nos impuseram a cada Dia da Raça, como se no rectângulo, por artes do filisteu de Santa Comba, nascessem homens e mulheres diferentes dos que viam a luz primeira em outras geografias. O poeta de HMC e Céu Guerra, é um humanista e um insubmisso, convive com o povo, com ele sofre a fome, a miséria e os maus-tratos, era humilhado por uma corte corrupta e imbecil quando ia ao Paço resgatar a avara tença; como qualquer degredado foi preso, vigiado pela inquisição, desprezado por um poder régio medíocre e alheio às necessidades dos mais pobres, que deles se servia como carne para canhão, em África, no Brasil e nas demandas da Índia. Um Camões amargurado não apenas com a sua madrasta sorte, mas com a do povo do qual foi solidário e cantou como nenhum outro. Um épico rigoroso e culto, para além de ser o nosso mais valoroso poeta lírico, ombreando nesse género com Petrarca, eis o que nesta peça sobreleva: Em prisões baixas fui um tempo atado/Vergonhoso castigo de meus erros;/Inda agora arrojado levo os ferros/Que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado. Também o poeta demiurgo sabendo que Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,/Muda-se o ser, muda-se a confiança;/Todo o mundo é composto de mudança,/Tomando sempre novas qualidade, ou o poeta anti-racista das Endechas a Bárbara escrava: Nem no campo flores,/Nem no céu estrelas/Me parecem belas como os meus amores,/Rosto singular, Olhos sossegados,/Pretos e cansados/Mas não de matar,[…]Pretidão de Amor,/Tão doce a figura,/Que a neve lhe jura/que trocara a cor./Leda mansidão,/Que o siso acompanha;/Bem parece estranha,/Mas bárbara não.

A música inspirada do maestro António Vitorino d’Almeida sublinha de modo impressivo as passagens enérgicas e emotivas deste Um Fogo que Arde Sem se Ver, peça que anda pelo País, em digressão. Não sei de melhor forma de comemorar os 500 anos do lídimo escultor desta nossa bela língua. Não percam este magnífico espectáculo que A Barraca nos oferece.



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