Entrevista com Vera Polycarpou, do Partido Progressista do Povo Trabalhador (AKEL, Chipre)

O nosso primeiro objectivo é acabar com a ocupação de Chipre

Meio século após o golpe de Estado fascista e posterior ocupação turca do Norte de Chipre, o AKEL continua empenhado na reunificação do país, na base de uma federação bicumunal e bizonal com igualdade política.

O AKEL trabalha na reaproximação das duas comunidades cipriotas

Vera Polycarpou, dirigente do partido, fala das consequências da ocupação, da ingerência externa e da certeza de que os cipriotas, se deixados em paz, conseguirão resolver os seus problemas.

Assinalou-se em 2024 os 50 anos da ocupação de parte de Chipre pela Turquia. Que consequências tem isto, ainda hoje, para o país e o seu povo?
Desde logo, a própria ocupação: 37% da ilha permanece ocupada. Trata-se da zona proporcionalmente mais militarizada do mundo. Estima-se que estejam em Chipre 40 mil militares turcos, mas é preciso ter presente que a Turquia se encontra apenas a 40 milhas náuticas de Chipre. A Turquia tem o segundo maior exército da NATO, tem F16 e em breve terá F35. Não há muito tempo, foi construído um aeroporto militar na zona ocupada, onde estarão estacionados drones espiões, e está a ser construída uma base naval.
Estão também a ser transferidos para Chipre colonos turcos, porque a zona ocupada foi etnicamente limpa de cipriotas gregos (foram mais de 165 mil os que saíram aquando da ocupação, para uma população total de 650 mil pessoas). A presença de colonos é tal que, hoje, em vastas áreas das zonas ocupadas, os cipriotas turcos já são uma minoria. A Turquia continua a assimilar a zona ocupada de Chipre, quer fazer dela mais uma província turca, com cultura diferente, arquitectura diferente e a forma de viver a religião também ela diferente. Os cipriotas turcos são fundamentalmente laicos.
A militarização, a limpeza étnica e a colonização e assimilação do Norte de Chipre não ajudam de modo nenhum à solução do problema.

Ainda há feridas muito abertas?
Houve muitos mortos, dos dois lados. E há ainda muitas pessoas desaparecidas, 1600 cipriotas gregos e 400 cipriotas turcos, alguns em resultado dos confrontos intercomunais de 1963-64 e a maioria de 1974. Durante muitos anos, não houve informação sobre as pessoas desaparecidas, até que em 2006 foi formado um comité para proceder a escavações e exames de ADN. Muitos foram já identificados e os seus corpos devolvidos às famílias, mas há centenas por descobrir e identificar. E, claro, muitos nunca serão encontrados. Neste processo há gente das duas comunidades envolvida.
Outra questão muito sensível, que veio ao de cima nos últimos anos, refere-se às violações de mulheres durante a guerra. Era considerado uma vergonha, não se falava disto.

O AKEL defende a reunificação de Chipre com base numa federação bizonal e bicomunal, ao mesmo tempo que denuncia o incremento do nacionalismo em ambas as comunidades. Neste quadro, como concretizar esta federação?
Para o AKEL não importa se um cipriota é grego ou turco. O principal é encontrar uma solução para o problema cipriota e unificar o país. Defendemos uma federação bizonal e bicomunal com igualdade política. Há já sete anos que não há negociações, as últimas foram em 2017 na base de um acordo de seis pontos, que no último momento o presidente da República de Chipre não aceitou. Estivemos perto de uma solução e perdemos essa oportunidade, o que deu força aos sectores nacionalistas de ambos os lados.

Qual a dimensão desse problema?
Este é um problema antigo. Desde os confrontos intercomunais de 1963-64 que há quem procure dividir os cipriotas entre gregos e turcos. O AKEL, pelo contrário, trabalha pela reunificação, pela reaproximação das duas comunidades, e é o único a fazê-lo.
Os nacionalistas cipriotas gregos sempre defenderam a unificação com a Grécia e a expulsão da comunidade cipriota turca. Do outro lado, os sectores nacionalistas querem manter a divisão do país.
O golpe de Estado de 1974 deu pretexto à Turquia para invadir Chipre e dividir o país, mas tudo isto tinha sido definido na reunião ministerial da NATO realizada em Lisboa em 1971: o Plano Afrodite, que incluía o golpe de Estado fascista e a posterior invasão turca, foi aí decidido.

Como lidar com o nacionalismo?
É uma luta muito difícil, temos consciência disso. Mas a nossa arma é a reaproximação. Trabalhamos entre o povo das duas comunidades, de forma aberta ou mais discreta. Temos contactos com as forças de esquerda da comunidade cipriota turca, que não têm a vida facilitada. A nossa juventude trabalha com a juventude da zona ocupada e o mesmo fazem os sindicatos. Há importantes sindicatos na zona ocupada – de professores, de trabalhadores municipais – que são membros da Federação Sindical Mundial, tal como a nossa confederação sindical. Fazem trabalho comum. E fazemos iniciativas culturais em conjunto.
Consideramos isto de grande importância para provar que não nos queremos matar uns aos outros. Pelo contrário, os cipriotas, se forem deixados em paz, conseguem resolver os seus problemas e as suas diferenças.

Para além da ocupação turca, uma vasta área do país permanece ocupada por bases militares estrangeiras. Há mais esta libertação por concretizar?
Em 1959, nas negociações para a independência de Chipre do colonialismo britânico (concretizada no ano seguinte), foi garantida a manutenção de duas bases militares britânicas na ilha. Chamam-lhes bases soberanas, é território britânico. Há tropas norte-americanas e israelitas nessas bases e suspeita-se que aí se concentre armamento norte-americano que segue, depois, para Israel.
Sempre nos opusemos a isto. A primeira grande marcha pela paz, contra as bases, foi em 1964, e continuam. Colocamos essa exigência, juntamente com a de impedir que essas bases sejam usadas na agressão a outros povos. Mas o nosso primeiro objectivo é acabar com a ocupação de Chipre. Depois, sim, acabaremos com as bases.



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