Israel está a levar a cabo genocídio e apartheid na Palestina
O povo palestiniano vive hoje um momento decisivo. O genocídio na Faixa de Gaza, a brutal repressão na Cisjordânia (com a expulsão de populações das suas casas e das suas terras) e o apoio que os EUA dão a mais este crime do sionismo convive com uma realidade antagónica: a resistência do povo palestiniano e a crescente solidariedade internacional que exige a criação e reconhecimento do Estado da Palestina. Disto falou ao Avante! Husam Daoud, da Frente Democrática de Libertação da Palestina (FDLP).
«O problema é o sionismo e não o judaísmo»
Qual é a situação na Palestina face à guerra genocida de Israel?
Todos os dias ocorrem mortes na Faixa de Gaza. De crianças, de mulheres, de todos os que vivem no território. Estão a matá-los e a destruir todas as casas, as escolas, os hospitais e, inclusive, as instalações da ONU. E, agora que acabaram com a Faixa de Gaza, estão a ir até à Cisjordânia, a fazer o mesmo nas cidades de Jenin, Tulkarem, Tubas… Estão a levar a cabo genocídio e apartheid.
Tudo isto é possível porque os EUA apoiam Israel, aconteça o que acontecer. Todos estão contra estas mortes, excepto os EUA, que dizem que «vão investigar». Mas o que é que há para investigar, se todos estão a ver o que está a acontecer?
Há uma semana, na Faixa de Gaza, morreu um preso norte-americano (que é realmente israelita, é soldado no exército israelita, mas tem nacionalidade norte-americana). Lá vieram o Trump, o Biden, a Harris e vários membros do Congresso dos EUA ameaçar os palestinianos pela morte de um norte-americano. Anteontem, o exército israelita matou uma cidadã norte-americana e não disseram nada. Aquele preso morreu nos ataques israelitas, como outros, como também muitos palestinianos. Foram os ataques israelitas à Faixa de Gaza a causa da sua morte.
Tendo em conta a influência dos EUA no genocídio, achas que haverá alguma alteração após as eleições norte-americanas deste ano?
Creio que, mais tarde ou mais cedo, os que apoiam Israel vão ser substituídos pelos jovens que estão a sair às ruas agora, nos EUA, a defender a causa palestiniana. Mas enquanto Estado, os EUA estão por trás de Israel.
Está a decorrer um diálogo para parar a guerra na Faixa de Gaza, entre o Egipto, o Qatar e os EUA. E logo vem Anthony Blinken [Secretário de Estado norte-americano] dizer que o Hamas não quer o acordo. Já o Hamas diz que quem está a recusar as propostas dos EUA é Netanyahu. Então, porque acusam o Hamas?
A resistência palestiniana é muito mais ampla do que o Hamas. Envolve múltiplos partidos e até gente que não está em nenhum partido, mas que também luta pela causa palestiniana. Acusam sempre os palestinianos de serem do Hamas, porque há muitos países europeus que consideram o Hamas uma organização terrorista. E porquê? Porque assim o disseram os EUA. E Portugal, Espanha, Alemanha têm que dizer o mesmo, porque quem manda são os EUA. Porque é que a Europa tem de estar sempre a reboque dos norte-americanos?
Os EUA, se não há uma guerra, têm de inventar uma, para venderem armas e conseguirem um objectivo, que é o de serem os donos do mundo. A guerra na Palestina não é entre Israel e o Hamas, como dizem, mas entre os EUA e o povo palestiniano. A reconstrução da Faixa de Gaza vai custar milhares de milhões de dólares. E quem vai pagar? Como é que estas pessoas vão viver entretanto? Agora estão a fazer o mesmo na Cisjordânia, onde já destruíram várias cidades.
Nas prisões israelitas, os prisioneiros palestinianos são muito mal tratados. Despem-nos e violam-nos. É isso que diz a imprensa israelita. E há um ministro a dizer que se deveria largar uma bomba atómica na Faixa de Gaza.
É possível que o governo de Israel, perante a resistência do povo palestiniano, seja obrigado a aceitar, finalmente, um acordo de cessar-fogo duradouro e a libertação dos detidos?
Não! Netanyahu quer estar no governo e está disposto a matar o exército israelita, o povo palestiniano e quem quer que seja para ficar no poder. Porque enquanto estiver no poder não pode ser condenado por corrupção e peculato. E os ministros da extrema-direita ameaçam-no, e dizem: «se tu paras a guerra, nós derrubamos-te e vais para a prisão».
Há pouco tempo, diversas organizações da resistência palestiniana, entre as quais a FDLP, assinaram, em Pequim, uma declaração que visava a reconciliação nacional. Que papel poderá desempenhar este acto na construção da unidade nacional?
Se nada mudar, nenhum… Isto já foi feito antes, em várias ocasiões. No Egipto, no Catar, na Arábia Saudita, na Rússia… Reúnem-se e quando voltam nada muda. Mesmo no seio da OLP, a Organização para a Libertação da Palestina, que congrega várias destas forças, há divisões entre a FDLP, a FPLP, a Fatah…
É preciso activar o Conselho Nacional Palestiniano e o Parlamento da Palestina e é preciso pôr tudo isto nas mãos do Conselho Nacional Palestiniano e da OLP. Nestas instâncias, sim, poder-se-ia chegar a um acordo.
Como é que chega à Palestina a imensa expressão de solidariedade internacionalista ao povo palestiniano?
Apesar de tudo o que lhes acontece, as pessoas na Palestina ficam felizes quando vêem os jovens na Europa, nos EUA e no mundo inteiro a saírem às ruas para os defender. O povo palestiniano está agradecido a todas essas pessoas, inclusivamente aos judeus.
Há judeus que saem às ruas para defender a causa palestiniana, porque o problema não é entre judeus e muçulmanos, ou entre judeus e árabes.
O problema é o sionismo e não o judaísmo. Há muitos judeus que são de origem palestiniana e dizem «nós somos palestinianos»! E há muitos judeus que estão a apoiar a causa palestiniana, inclusivamente nos EUA e em Israel.