A solidariedade internacional dá força a Cuba para seguir em frente
O povo cubano continua a enfrentar o ilegal e criminoso bloqueio imposto pelos EUA há décadas e reforçado nos últimos anos. Apesar disso, Cuba continua a ser exemplo de corajosa resistência e de avanço em prol do povo. Em entrevista ao Avante!, Julio Rodríguez, membro do Comité Central do Partido Comunista de Cuba (PCC) e deputado na Assembleia Nacional do Poder Popular de Cuba, e Belkys Lay Rodríguez, funcionária do Departamento Internacional do PCC, falaram sobre as consequências do bloqueio, as prioridades de Cuba e as relações que mantém com o mundo.
O bloqueio é um acto genocida, silencioso e lento
Nos últimos anos, tem-se vindo a agravar o ilegal e criminoso bloqueio dos EUA contra Cuba. Que efeitos tem no país?
JR: O bloqueio económico, financeiro e comercial dos EUA tem 63 anos, o que significa que cerca de 80 por cento dos cubanos nasceram sob o bloqueio, que tem imensos impactos na vida quotidiana do povo. É uma perseguição constante.
Vê-se isso na alimentação. Temos carência de produtos que ainda não conseguimos produzir o suficiente e que precisamos de comprar ao estrangeiro. Mas impedem-nos de o fazer. Falo de leite em pó, arroz e de outros grãos por exemplo. Hoje temos apagões à custa do défice energético provocado pela impossibilidade de comprar combustível. Não conseguimos utilizar o petróleo cubano para tudo, é muito denso. E por isso só o utilizamos para produzir energia em centrais térmicas. Para tudo o resto, temos de adquirir petróleo refinado.
BLR: Ainda não caem bombas, mas o bloqueio é um acto de guerra que provoca mortes. Quando há uma doença e existem medicamentos, mas, por culpa do bloqueio, demoramos demasiado a chegar-lhes, mesmo que tenhamos dinheiro, morrem pessoas. É por isso que dizemos que o bloqueio é um acto genocida, silencioso e lento.
O que está ser feito para o contrariar?
JR: O investimento no pólo científico é importante. Com a COVID19, aumentaram os problemas respiratórios. Quisemos adquirir, através de outros países, ventiladores pulmonares. O governo norte-americano perseguiu cada uma dessas nações que contactámos e impediu-nos de o fazer. Só foi possível construir esses aparelhos graças ao nosso nível científico.
Da mesma forma, as principais potências começaram a desenvolver vacinas. Cuba não tinha dinheiro para as adquirir. Colocou-se este desafio à comunidade científica e desenvolvemos três vacinas, as mesmas que depois oferecemos aos países mais pobres dos continentes africano e americano.
Agora mesmo, estamos a tratar de desenvolver o programa agrícola. O cultivo de arroz popular, por exemplo. Não queremos que apenas as empresas o produzam. Entregamos terras a camponeses para que o possam também fazer. Assim, cresce a produção, conseguimos abater mais um pouco da importação de arroz e criamos emprego.
Que prioridades e medidas estão a ser implementadas visando o desenvolvimento económico do país?
JR: Mantemos os princípios da política económica do país, que é a concentração do peso principal no desenvolvimento do sector estatal socialista. Ao mesmo tempo, estimulamos o trabalho privado como um complemento aos serviços que o Estado não consegue assegurar. Neste âmbito, a produção de alimentos é a primeira prioridade. E o desenvolvimento do turismo é outra.
Temos sol, praia e natureza, uma grande infra-estrutura hoteleira e trabalhadores preparados. É uma fonte importante para o desenvolvimento do país, mas também nesta área estamos muito limitados pelo bloqueio. Outra das prioridades é o desenvolvimento da produção industrial e biotecnológica.
O Estado mantém também um programa básico social de saúde, educação, desporto, cultura e segurança social. As pessoas que estão em situações mais vulneráveis, com doenças crónicas, reformadas, estas pessoas que são quase sempre as que sofrem de maiores problemas sociais e possuem menores rendimentos, são a prioridade do país. Queremos dar-lhes uma atenção personalizada, com ajuda financeira, de alimentos e de condições para as suas casas.
Como avalia Cuba os mais recentes desenvolvimentos na América Latina e Caraíbas, nomeadamente em torno da Venezuela?
JR: A política externa da revolução cubana é muito concreta: respeito e não intromissão nos assuntos internos de outros países, o princípio de diálogo entre ambas as partes e, sobretudo, a política de paz. É a partir daí que mantemos relações com a maior parte do mundo, incluindo nações com governação de direita.
A excepção é Israel, com quem Cuba rompeu relações em 1974. Pela natureza desse Estado, do expansionismo, do terrorismo, de lealdade total com o imperialismo. Não nos faz falta ter relações com estados assim, não nos ajuda. E a vida deu-nos razão. Ano após ano, aí está Israel, a praticar uma política de genocídio e de ocupação ilegal de territórios.
BLR: São mesmo esses os valores da nossa política externa: o princípio do respeito à soberania, integridade e ao direito de auto-determinação dos povos, tal como exigimos para nós próprios.
Em Portugal, como um pouco por todo o mundo, a solidariedade com Cuba tem-se feito ouvir. Como chega e é sentida em Cuba esta solidariedade?
JR: Portugal sempre manteve uma posição solidária com Cuba. Quando dizemos isto, não estamos a falar dos governos, estamos a falar do povo português, das organizações de esquerda, do PCP, que frente a pressões de todo o tipo, manteve sempre uma posição firme pela defesa da causa cubana, contra o bloqueio e contra a ingerência imperialista em Cuba. Existem batalhas que se travam todos os dias e faz muita falta esse apoio moral, porque dá muita força para seguir em frente.
Cuba também tem respeito por Portugal. Ao seu povo, ao movimento de solidariedade com Cuba que é muito forte e ao PCP que tem sido uma força que faz frente à direita e a toda essa campanha anticomunista. Isso dá-nos uma força enorme e nutrimos muito respeito pelo trabalho que desenvolvem.