Não há possibilidade de fuga às responsabilidades políticas
PS e PSD/CDS são responsáveis, à vez, pelo estado a que as coisas chegaram
Cinco reclusos fugiram da cadeia de alta segurança de Vale de Judeus. Muito já foi descrito sobre como se processou, que tipo de criminosos envolve, bem como algumas das deficiências de que padece essa prisão.
Entretanto, 48 horas passadas, alguns membros do Governo começaram a aparecer no comentário, a ministra Rita Júdice demorou mais algumas horas, com a narrativa usual e aplicada a todas as situações, a saber: só estamos no governo há cinco meses, não se pode resolver tudo. Aceitou duas demissões e determinou uma auditoria até Dezembro. Ou seja, não há passado. Não houve ao longo dos anos governos PSD/CDS e não é a situação vivida no sistema prisional fruto de décadas de desinvestimento no sistema. Ambos, PS e PSD/CDS, trocam galhardetes com mais ou menos verniz e ambos têm razão, já que foram à vez os responsáveis pelo estado a que as coisas chegaram.
Sucessivos alertas, propostas e iniciativas do PCP, ao longo dos anos, sobre o sistema prisional foram ignorados. Relembra-se o projecto-lei de Abril de 2017 sobre a aprovação de uma Lei de Programação de Investimentos no Parque Prisional, dando corpo a uma preocupação de há muito do PCP, no qual se referia que «medidas avulsas e de pequenas melhorias nas condições dos estabelecimentos prisionais que têm vindo a ser praticadas não correspondem às verdadeiras necessidades do País». Relembra-se vários questionamentos, desde 2009 até à actualidade, sobre faltas de efectivo em estabelecimentos prisionais em concreto e no geral. Relembra-se questionamentos sobre Planos de Segurança e Emergência nos estabelecimentos prisionais; sobre valorização remuneratória; sobre o estado lastimoso de Torres de Vigia, por exemplo em Vale de Judeus ou em Custóias; sobre sistemas ineficazes de vídeo vigilância em estabelecimentos prisionais; sobre a separação entre serviço prisional e a reinserção social; sobre a área da saúde em sistema prisional e falta de profissionais; sobre a falta de técnicos de reinserção e carreiras; sobre a carreira de Chefes, entre outros assuntos.
Em 2023, por iniciativa do PCP, foi efectuada uma audição, por via da comissão parlamentar respectiva, para obter uma visão holística do sistema. Uma audição que, pela sua natureza, permitiu ouvir diversos intervenientes no sistema e obter um vasto conjunto de opiniões e sugestões para a resposta aos problemas existentes. Portanto, o essencial do diagnóstico está há muito efectuado. A ministra Rita Júdice pouparia tempo se tomasse em mãos este material e a partir dele adoptasse medidas.
Submissão aos privados
Entretanto, apanhando a boleia do ocorrido, emergiu pela boca de alguns a ideia da privatização das prisões de forma total ou parcial, sendo a visão do parcial a parte do fornecimento de bens e serviços. Também nesta matéria o tema recorrente. A experiência de privatização de prisões no Reino Unido saldou-se por um fracasso, regressando ao sector público. Nos EUA os estudos apontam para maior violência dentro das cadeias e o desinteresse completo pela reabilitação. Afinal, quantos mais presos maiores serão os seus lucros.
O Estado não está condenado a ter de ser mau prestador de serviços penitenciários, como não está condenado a ter de ser mau prestador de serviços jurídicos que justifique, como se vai lendo, a contratação de escritórios privados por centenas de milhares de euros. As razões de fundo de tais opções são as mesmas que têm levado ao desbaratar de empresas e sectores estratégicos com fortes prejuízos para o interesse nacional e afectando a reserva de soberania necessária a que o nosso País possa decidir o seu futuro. A política de submissão aos interesses do grande negócio.
A fuga de prisioneiros agora acorrida, como o caso do roubo de armas em Tancos, o que realmente trouxe à tona foi as consequências de anos de política de direita de maltrato da administração pública, dos serviços públicos, dos seus corpos especiais. As responsabilidades políticas desse desgraçado caminho não tem fuga possível.