Arauta do capital e da guerra
von der Leyen representa o «consenso de guerra»
A nomeação de Ursula von der Leyen para um segundo mandato como presidente da Comissão Europeia, para o período 2024-2029, e a sua votação no Parlamento Europeu «obrigou» a uma mais ampla mobilização, colocando em evidência a convergência das forças – direita, «social-democracia», liberais, «verdes» – que têm dirigido e sustentado o consenso neoliberal, federalista e militarista na União Europeia.
Aliás, tal consenso tinha ganho uma dimensão ainda mais expressiva na eleição de Roberta Metsola para presidente do Parlamento Europeu, em que o Grupo Esquerda Unitária Europeia / Esquerda Verde Nórdica – A Esquerda no PE, que o deputado do PCP integra, foi o único – apesar das profundas diferenças existentes no seu seio – a apresentar uma candidatura alternativa, que claramente se demarcou do que designou ser o «grande consenso de guerra».
Muito haveria a dizer sobre as prioridades apresentadas por von der Leyen na sua declaração perante o Parlamento Europeu. Talvez um dos aspectos mais significativos tenha sido a forma como caracterizou o mundo em processo de mudança – que não se consegue mais «moldar», «controlar», «determinar» ou «impedir», na medida dos interesses que von der Leyen representa – como se de uma «adversidade» se tratasse.
É espantoso como von der Leyen se sentiu obrigada a referir fugazmente o custo de vida e de habitação, a pressão sobre as empresas e os agricultores ou a preocupação sentida com o que designa de «perspectiva de guerra», sem que aponte as responsabilidades da UE e das suas políticas por estas realidades. Como é significativo que von der Leyen levante a voz perante o que designa de «demagogos» e de «extremistas», sem referir por uma única vez na sua intervenção a extrema-direita.
Num autêntico «toca a reunir», von der Leyen, arauta do grande capital, apontou como primeira prioridade a denominada competitividade – isto é, um ainda maior apoio às transnacionais, travestidas de «campeões europeus» – e o aprofundamento do Mercado Único «em todos os domínios», em particular da União dos Mercados de Capitais – promovendo uma ainda maior concentração do capital –, para ir buscar, como diz, os «300 mil milhões de euros das poupanças das famílias europeias [que todos os anos] vão da Europa para os mercados externos». Mas não se fica por aqui. Como afirma, «para libertar o investimento privado, precisamos também de financiamento público», nomeadamente do orçamento da UE.
Numa fuga em frente, que oculta as contradições, assim como os problemas que os trabalhadores e os povos enfrentam e as políticas e interesses de classe que estão na sua origem, von der Leyen apontou como segunda prioridade o militarismo e a guerra, anunciando a criação «de uma verdadeira União Europeia de Defesa», subordinada à NATO, a continuação do aumento das despesas militares e a criação de um mercado único para o negócio do armamento e da guerra.
Por fim, entre a miríade de intenções proclamadas, von der Leyen deu particular destaque ao controlo e censura da informação e à promoção da desinformação, da manipulação e da interferência externa veiculada pela UE, cinicamente denominado de «Escudo Europeu da Democracia», incluindo com a participação de serviços de informação e dos «gigantes digitais» ou a imposição de medidas coercivas, para salvaguardar o que diz ser o seu «modo de vida europeu».