O genocídio e as fontes

Gustavo Carneiro

Dura há já mais de nove meses o genocídio que, aos olhos de todo o mundo, Israel está a cometer na Faixa de Gaza. Durante esse tempo, fomos sendo confrontados – a um ritmo quase diário – com a macabra contabilidade da chacina: 1000 mortos, 5000 mortos, 10 000 mortos, 20 000 mortos, 30 000 mortos… Em qualquer um dos casos, cerca de metade eram crianças.

Da parte de Israel, dos seus aliados («cúmplices» talvez seja a expressão mais apropriada) e, claro, dos média sempre dispostos a amplificar a sua versão, estes números não seriamcredíveis, desde logo porque eram apresentados pelo que chamam de Ministério da Saúde do Hamas. Nos noticiários repetia-se diariamente expressões como «segundo o Hamas» ou «as autoridades de saúde do território controlado pelo Hamas afirmam»… Até a agência das Nações Unidas que trabalha nos territórios palestinianos, a UNRWA, foi acusada de estar «infiltrada» pelo Hamas…

Trata-se de um truque antigo: perante a força inequívoca da mensagem, ataca-se o mensageiro. Mudemos, então, de mensageiro.

Há dias, a revista médica britânica The Lancet, fundada em 1823 e actualmente uma das mais prestigiadas na área, estimou em mais de 186000 os palestinianos mortos por Israel na Faixa de Gaza – numa altura em que as autoridades de saúde locais contabilizavam«apenas» 38000.

Para os autores do estudo, aquela é uma estimativa «conservadora», que aponta para quatro mortes indirectas por cada morte directa – o que não é, de todo, «implausível», garantem. O cálculo, sublinham, foi feito tendo em conta as informações recolhidas no terreno e avaliando outras situações de guerra. Fora da contabilidade oficial das autoridades de Gaza (que contam sobretudo os mortos em hospitais e os que lá chegam já sem vida, acrescentando-lhes outras informações e relatos credíveis, como de paramédicos) estão milhares de corpos ainda por retirar dos escombros dos edifícios destruídos pelos bombardeamentos israelitas e as vítimas de causas indirectas da guerra, como a falta de acesso a cuidados de saúde, comida, água ou abrigo.

Este número de 186000 vítimas mortais (que já hoje se encontrará desactualizado)representa qualquer coisa como 8% da população total do território.

No artigo afirma-se ainda que mesmo que os ataques cessassem imediatamente, estas mortes – ditas «indirectas» – continuariam a ocorrer nos próximos meses e mesmo anos, sobretudo devido a doenças. Uma inevitabilidade face à destruição das infra-estruturas de saúde, à dramática escassez de água, comida e abrigo, à inexistência de «zonas seguras» e à própria redução do financiamento da UNRWA, uma das poucas organizações que ainda fazem trabalho humanitário na Faixa de Gaza.

Uma coisa é certa: independentemente das fontes e dos números, é genocídio.

 



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