Votos, especialistas e omissões
As últimas semanas foram marcadas por um autêntico desfile de correspondentes televisivos, enviados especiais e «comentadores-especialistas» a propósito de dois actos eleitorais, no Reino Unido e em França. Com sistemas eleitorais diferentes entre si, têm em comum o facto de ambos elegerem cada um dos deputados em círculos uninominais.
Entre o muito que passou ao lado das análises mediáticas aos resultados eleitorais conta-se também a ausência de referência aos efeitos perversos desse sistema que, em Portugal, tem adeptos, que defendem ser essa uma forma de aproximar eleitos e eleitores.
O Partido Trabalhista britânico elegeu 63% dos deputados com 33% dos votos, Richard Holden foi eleito no seu círculo eleitoral apesar de 70,1% dos eleitores terem votado noutros candidatos e, de acordo com o grupo «Make Votes Matter», houve mais britânicos a votar em candidatos que não foram eleitos do que nos actuais 650 membros da Câmara dos Representantes. Nenhum deste números teve lugar no comentário eleitoral. Foi celebrada uma retumbante vitória dos trabalhistas britânicos, que dá ao Reino Unido um primeiro-ministro que passa no teste das análises mediáticas – ao contrário do seu antecessor na liderança do partido, cuja oposição à submissão ao sionismo e solidariedade com o povo palestiniano levou à sua expulsão após uma poderosa operação mediática.
Curiosamente, não só foi reeleito deputado como independente, batendo um candidato trabalhista, como o seu ex-partido teve mais votos em qualquer das eleições que disputou como líder do que em 2024. Também nada disto teve espaço no comentariado cá do burgo.
Nas análises ao que se passou no último domingo no outro lado do Canal da Mancha, há muitos pontos de coincidência e um em que a distinção não podia ser maior. Comecemos então pelas semelhanças: alguém que acompanhou as eleições francesas pela comunicação social portuguesa percebeu qual foi a força política mais votada no passado domingo? A maioria dirá, certamente, que foi a Nova Frente Popular, mas na verdade foi a segunda força política em votos, apesar de ter mais eleitos nas contas finais. O sistema partidário e eleitoral francês, com duas voltas, leva a uma atenuada desproporção face ao Reino Unido, mas também aqui se revelou um certo desprezo pelo que se expressou através do povo popular em notícias, análises e comentários: de tal forma que os votos efectivamente expressos não passam de uma nota de rodapé – o que pode ajudar a cimentar narrativas mas não contribui nada para retirar quaisquer conclusões a partir de resultados eleitorais que vão para lá dos arranjos institucionais que delas resultem.
Chegamos então à grande diferença no tratamento. Enquanto o «arraso» eleitoral da «esquerda» britânica (com 33% e menos votos do que em 2017 e 2019) é celebrada (até porque, agora, não vai pôr em causa a chacina sionista na Palestina), a «vitória» da Nova Frente Popular foi tratada com epítetos como «extrema-esquerda» ou, no caso de um comentador da SIC, sendo «pior em algumas coisas» do que a extrema-direita.
Faz lembrar a injustiça que alguns, por cá, devem sentir quando são acusado de amigos da Venezuela, apesar da sua natureza social-democrata.