Variações em dó menor

Rui Fernandes

O País não terá futuro se for apenas um destino de sol e praia

Notícia recente dá conta de que um em cada três jovens emigrou e que parte significativa destes não pensa regressar em breve. A predominância nesta opção vai para jovens qualificados em diversas áreas e a razão de fundo reside no salário praticado em Portugal e o bloqueio que gera no seu processo de emancipação, aliado ao reconhecimento profissional. Ou seja, em Portugal paga-se mal e desconsidera-se profissionalmente. Segundo o Atlas da Emigração Portuguesa, lançado em Janeiro deste ano, mais de 850 mil jovens na faixa etária entre os 15 e os 39 anos deixaram o País na última década, correspondendo a 70% dos que assim optaram.

O Governo AD veio recentemente fazer uns anúncios com o propalado intuito de atrair o regresso (tenha-se presente que desde 2019 existe o Programa Regressar) de muitos destes jovens. Um programa que incide nuns apoios ao crédito, benefícios fiscais, etc. Um programa que surgiu no seguimento de um outro de nome Vem, do tempo do governo PSD/CDS de Passos Coelho, e que teve o então Secretário de Estado Pedro Lomba como propagandista e, programa esse, cuja verba adiantada permitiria apoiar 50 ou 60 projectos (entre 10 a 20 mil euros por projecto), isto para os que quisessem tentar juntar-se aos muitos milhares de micro e pequenos empresários.

O governo PS acabou com o Vem e criou o Regressar, mas não são os nomes dos programas o problema. Esse está na política de baixos salários, na ausência de medidas que ataquem de frente os problemas da habitação e o seu especulativo custo, na falta de medidas que valorizem as profissões, no baixo valor investido no desenvolvimento cientifico e tecnológico, entre outras.

Lembremos que foi pela mão do governo PSD/CDS que o Conselho das Comunidades foi governamentalizado, liquidou o ensino de Português no estrangeiro, fechou consulados e fez outras malfeitorias com impacto nas comunidades portuguesas, que os governos PS não reverteram.

Com propriedade, se aplica a frase de Nietzsche: «A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira.» Acontece, porém, que há quem a tenha. Muitos dos que saíram e saem de Portugal, independentemente das suas qualificações, são do Interior. Todos nos recordamos da conversa sobre o Interior, a paixão pelo Interior, o problema é que nenhumas políticas são desenvolvidas para o dotar dos serviços básicos que garantam qualidade de vida – repor as escolas encerradas, os transportes públicos, os serviços de saúde e outros serviços públicos.

Seja qual for o nome do programa que queiram adoptar e a propaganda que decidam fazer, ninguém regressa por regressar. Regressam porque já satisfizeram os objectivos que os levaram a sair, podendo encarar a vida em Portugal de modo mais seguro, muitas das vezes fugindo das suas terras no Interior porque não têm resposta para necessidades básicas. Vão lá, mas não ficam lá. Ou então há uma aposta séria em políticas que, dando resposta ao problema dos salários, ao reforço dos serviços públicos, à valorização das carreiras e profissões, à habitação, etc., fixem cá a juventude.

Como temos dito e redito ao longo do tempo, o País não terá futuro se for apenas um destino de sol e praia, com um modelo económico baseado em baixos salários, déficit e dependência do estrangeiro.

 



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