A máquina do império, um modelo à escala

António Santos

É óbvio que um modelo nunca é a realidade que ele representa: um modelo do sistema solar não é o sistema solar. O regime político dos EUA é quase tão complexo e vasto como o sistema solar: milhares de rodas dentadas judiciais engrenam, a velocidades distintas, nos diferenciais políticos de legislaturas estaduais e federais controladas, a seu turno, por mecanismos partidários e activadas por ainda mais complexos motores económicos e financeiros. A utilidade de um modelo é precisamente o facto de não ser perfeito: uma redução ao essencial.

Um modelo útil da máquina americana foi esquematizado no acordo que, na semana passada, permitiu a aprovação de um pacote de 95 mil milhões de dólares para a guerra imperialista na Europa, na Ásia e no Médio Oriente, bem como para a militarização da fronteira com o México. Quando observadas individualmente, parecem rodar em sentidos antagónicos. A poucos meses das eleições presidenciais, o Partido Republicano fizera do bloqueio ao envio de mais armas para a Ucrânia um trunfo de campanha que ilustrava a promessa trumpista de desagravar, redireccionar ou, pelo menos, fazer os europeus pagar a totalidade da conta da guerra. Já o Partido Democrata fizera do Senado uma câmara de ressonância para os ataques à pessoa de Trump. O resultado das presidenciais de Novembro parecia depender em larga medida da capacidade de Trump e Biden se diferenciarem, bloqueando a máquina institucional.

Desafiando a suposta polarização, democratas e republicanos entenderam-se e aprovaram o pacote. Dos 95 mil milhões de dólares, a maior parcela, 61 mil milhões, servirá para comprar mais armas para alimentar a guerra na Ucrânia, uma doação que, sozinha, ultrapassa todo o dinheiro americano investido naquele conflito desde 2022 (40 mil milhões). Outros 26 mil milhões têm como finalidade continuar o genocídio do povo palestino e alargar a guerra no Médio Oriente; os restantes 8 mil milhões foram destinados à ingerência e provocação contra a China.

Apesar de ter sido objecto de votações individuais na câmara baixa do Congresso, o pacote financeiro foi aprovado precisamente porque sintetizou num modelo político as regras da máquina do império: a) a democracia como um jogo de palavras e luzes em que se extremam discursos em torno de posições próximas; b) o consenso em torno da necessidade de preservar, por todos os meios, a hegemonia imperial; c) a necessidade de continuar a guerra de classe contra os trabalhadores.

Chuch Schumer, presidente democrata do Senado, elogiou o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, um cristão fundamentalista de extrema-direita, por «ter estado à altura do desafio». Mike Johnson foi mais longe e chamou «herói» ao amigo democrata. A diversidade e variedade de votos permitiu que cada congressista, mais «à esquerda» ou mais «à direita» pudessem salvar a face, sem comprometer o resultado final.

O acordo requereu também a insistência na ameaça de proibir o TikTok; a concordância em relação à repressão das manifestações em defesa do povo palestino, que já levou à detenção de mais de mil pessoas, e a anuência democrata em relação à expansão, no sul, das leis que criminalizam a organização sindical, a greve e a manifestação. O regime estado-unidense é tudo o que este acordo implica, só que a uma escala maior.

 



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