Abril está bem vivo e é mesmo mais futuro
O povo português deu a resposta que se impunha, defendendo Abril e os seus valores
Impressionantes. Emocionantes. Grandiosas. Extraordinárias. Não há adjectivos capazes de descrever cabalmente a dimensão e o significado profundo das comemorações populares dos 50 anos da Revolução de Abril: perante novas ameaças e antigas aspirações, o povo deu a resposta que se impunha, afirmando que é no caminho de Abril que está a esperança num País mais justo, desenvolvido e soberano.
Contrariando as intenções dos que pretendiam aproveitar a data redonda para decretar um qualquer «fim de ciclo» ou para arrumar a Revolução de Abril numa prateleira da História, as comemorações populares mostraram que os valores de Abril estão bem vivos e que são mais futuro do que memória: em várias localidades por todo o País, um mar de gente participou em desfiles e manifestações, concentrações e espectáculos, arraiais, romagens e sessões evocativas.
Marcante foi, também, a presença da juventude, das crianças, dos jovens casais, dos bebés. Também por isto, Abril é mais futuro.
O desfile de Lisboa foi, porventura, o exemplo maior do que atrás se diz. Já passava das 19h00 e havia ainda quem iniciasse a marcha no Marquês de Pombal para rumar ao Rossio, que há muito se encontrava cheio, transbordante. O mesmo acontecia na Praça dos Restauradores e na Avenida da Liberdade, não só no eixo central como nas laterais: uma multidão compacta, determinada e alegre, satisfeita por participar num momento ímpar e apostada em defender, recuperar e prosseguir muitas das conquistas revolucionárias. «Nunca tinha visto nada assim», ouviu-se de várias vozes – umas jovens e outras nem tanto.
Em cartazes, faixas, palavras de ordem e cânticos, exigia-se vida digna para todos, com melhores salários e pensões, e um efectivo combate à pobreza, às desigualdades e à precariedade. Reivindicava-se a concretização plena e universal dos direitos constitucionais à saúde, à educação, à habitação, à cultura e ao desporto. Reclamava-se protecção especial para os mais frágeis e a liberdade de se ser quem se é, sem discriminações. Recordava-se que a infância é para ser plenamente vivida e que as crianças não têm verdadeiramente direitos se os seus pais forem privados dos seus. Defendia-se a natureza e a paz, sem as quais nenhuma outra aspiração tem possibilidade de vingar.
Em todo o País
Muitos, mas mesmo muitos mil, encheram também as ruas do Porto para continuar Abril. Classificada por muitos dos participantes como uma das maiores manifestações de sempre, o povo saiu em peso à rua para gritar bem alto «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais».
Do tradicional desfile do dia 25 saído do Largo Soares dos Reis em direcção à Avenida dos Aliados, que desta vez foi pequena para acolher tantas pessoas, ficou a clara mensagem que o povo está unido e que não vai deixar cair as conquistas da Revolução, contrariando as vozes que defendem o regresso ao passado e dominam o espaço mediático. «Saúde, Educação, Segurança Social é direito universal», «Habitação sim. Especulação Não» e «Abril está na rua. Em Maio, a luta continua» foram outras das palavras de ordem mais gritadas por pessoas de todas as gerações que integraram o desfile nas ruas portuenses armadas de cravos e bandeiras.
Um desfile que foi antecedido de uma homenagem aos resistentes antifascistas, uma vez que a concentração aconteceu bem junto à antiga delegação do Porto da PIDE, que funcionou como prisão política até à tarde de 26 de Abril de 1974, altura em que os militares do MFA libertaram o último preso.
As comemorações, como habitualmente, começaram na noite de 24 na Avenida dos Aliados, este ano com a novidade do espectáculo de videomapping, que encheu as paredes do Hotel Monumental com imagens e cor alusivas aos acontecimentos marcantes de 1974. Depois, música e poesia a cargo dos grupos Canto Nono, Vozes da Rádio e o Coral de Letras da Universidade do Porto que, já depois da meia noite, interpretou «Grândola, Vila Morena», entoada com a ajuda de milhares de vozes emocionadas. No dia 25, a música ficou a cargo de André Castro e Cara de Espelho.
A constatação de se estar perante as maiores comemorações do 25 de Abril de sempre e algumas das maiores manifestações algumas vezes vistas foi comum a todo o País, como procuramos mostrar nestas páginas.
Como diria o poeta, referindo-se precisamente à nossa Revolução, foi bonita a festa, pá. Continuemo-la.
Um Abril imenso, uma poderosa afirmação de futuro
A Comissão Política do Comité Central do PCP sublinha o profundo significado e dimensão da celebração popular do cinquentenário da Revolução, esse imenso 25 de Abril que por todo o País, e para lá das suas fronteiras, encheu praças, avenidas e ruas – com uma dimensão inapagável no coração das cidades de Lisboa e Porto – afirmando Abril, os seus valores e actualidade.
As milhares de iniciativas realizadas por todo o País com uma notável diversidade e vincado carácter popular, constituíram uma forte expressão da determinação dos trabalhadores e do povo em exaltar e defender os valores, as conquistas e o projecto transformador a que a Revolução deu corpo erigindo grandes realizações colectivas do povo português e alcançando conquistas e direitos históricos – muitos dos quais ainda hoje marcam a realidade nacional – que no seu conjunto contribuíram para abrir e fazer avançar novas perspectivas na luta e construção de uma sociedade mais justa e solidária.
A imensa participação e os conteúdos das inúmeras manifestações populares demonstraram um enorme compromisso colectivo do povo português em defender a democracia e a liberdade conquistadas com Abril, bem como os demais direitos económicos, sociais, culturais e civilizacionais que foram e são expressão da luta e acção criadora das massas populares.
Uma participação indissociável da acção dos que nunca desistiram em cada um dos últimos 50 anos de garantir a comemoração popular do 25 de Abril.
Uma resposta inolvidável aos que tentam apagar o profundo significado desta data e desse tempo fundador e genuinamente novo que se abriu, aos que inconformados com o que ela representou a procuram secundarizar, adulterar e diminuir, aos que promovem o branqueamento do fascismo e uma visão reaccionária da sociedade. Uma participação autêntica e massiva que obrigou a não ficar de fora mesmo alguns que, pelas suas opções e política, procuram negar Abril. E, sobretudo, uma resposta marcante de gerações inteiras – com uma ampla participação juvenil que uniu jovens e menos jovens, resistentes de ontem e combatentes de hoje – aos que ambicionam fazer retroceder o País aos tempos obscuros que a corajosa iniciativa militar dos capitães e o imediato levantamento popular, traduzido na Aliança Povo-MFA, derrotou, dando sequência a décadas de resistência e luta da classe operária, dos trabalhadores e do povo português que teve no Partido Comunista Português papel central.
A Comissão Política do Comité Central do PCP saúda todos os que numa mobilização popular impressionante saíram à rua para comemorar Abril e, ao mesmo tempo, afirmar a exigência dessa vida melhor que a Revolução anunciou, reafirmando o seu empenhamento em prosseguir a sua intervenção e o seu compromisso com esses objectivos. Saúda igualmente todos os que prosseguem a luta contra o revisionismo histórico e o branqueamento do fascismo, registando como uma importante vitória a criação do Museu Nacional Resistência e Liberdade na Fortaleza de Peniche, cujo acto inaugural, coincidindo com a comemoração dos 50 anos da libertação dos presos políticos, ficará marcado pela grande participação popular nas acções convocadas pela União de Resistentes Antifascistas Portugueses.
Este Abril revela energias e capacidades que importa incorporar na luta dos trabalhadores e das massas populares, com a confiança de que unidos e organizados podem derrotar ataques e tentativas de retrocesso e impor resposta aos seus problemas e aspirações, certos de que têm nas suas mãos o futuro da suas vidas e o destino do País.
Desde já no 1.º de Maio. Esse Maio do trabalho que a classe operária, os trabalhadores e o povo nunca deixaram de assinalar mesmo em tempo de trevas e repressão, que há 50 anos, na grandiosa expressão de 1974, impulsionou a Revolução de Abril, e que este ano na jornada convocada pela CGTP-IN é o momento para dar expressão aos direitos dos trabalhadores, reclamar o aumento dos salários, valorizar reformas e pensões, elevar as condições de vida, dignificar o trabalho, combater a exploração e as discriminações.
A Comissão Política do Comité Central do PCP apela aos trabalhadores e ao povo, aos jovens e às mulheres, aos reformados e imigrantes para o desenvolvimento da luta, no 1.º de Maio e além dele, para que façam ouvir a sua voz em defesa dos seus direitos, pela resposta e soluções aos seus problemas, por uma política alternativa que rompa com a política de direita e promova o progresso e o desenvolvimento económico e social que Abril iniciou, um horizonte contrariado por décadas de processo contra-revolucionário, em prejuízo do povo e do País, uma política alternativa que a situação hoje reafirma como indispensável para o futuro de Portugal.
A Comissão Política do Comité Central do PCP
29 de Abril de 2024