No Centenário de Sebastião da Gama, pelo sonho é que vamos
Assinalando o centenário de Sebastião da Gama, foi publicada a antologia «Por Mim Fora»
Sebastião da Gama, professor e poeta, nasceu em Vila Nova de Azeitão, a 10 de Abril de 1924 e faleceu em Lisboa em 1952. Foi professor da Escola Industrial Veiga Beirão, em Lisboa, e, em Setúbal, na Escola Industrial e Comercial (actualmente Escola Secundária Sebastião da Gama).
Poeta cuja voz plana entre um lirismo contido, a revolta pela condição de miséria vivida pelos trabalhadores no regime fascista, nomeadamente os pescadores da península de Setúbal, e o amor caldeado por uma candura romântica, como bem assinala Óscar Lopes, o culto da paisagem, relevando uma sóbria e fecunda natureza poética, que a morte prematura limitou no apogeu criativo. Ligado ao movimento da revista Távola Redonda, na qual pontuavam nomes como David Mourão-Ferreira, Fernanda Botelho, Fernando Guedes, Luís de Macedo e José Terra, entre outros, desenvolve uma poética ancorada entre o presencismo e um formalismo metafísico no qual ainda ressoa algo de pessoano. Sebastião da Gama irá incorporar uma outra vertente poética mais solta, próxima das inquietações ecológicas, num discurso atento à natureza e à sua degradação causada pela irracionalidade ou usura do homem, manifestando esse posicionamento, então raro, na denúncia das malfeitorias praticadas na «sua» Serra da Arrábida, no livro Serra Mãe.
Parte da vida breve de Sebastião da Gama foi vivida na Serra da Arrábida e a sua poesia não deixou de reflectir uma vivência muito atenta à paisagem, ao esplendor da flora, às praias e ao mar da Arrábida. Esse amor pela serra, pela defesa do seu ecossistema, está muito presente na sua obra e é tocante, mesmo quando essa voz arrebatada descreve, em arrobo romântico, a magia da noite descendo sobre a sua luxuriante vegetação: O agoiro do bufo, nos penhascos…/foi o sinal da Paz./o silêncio baixou do Céu/mesclou as cores todas do negrume,/o folhado calou o seu perfume,/a Serra adormeceu//depois, apenas uma linha escura/e a nódoa branca de uma fonte antiga:/a fazer-se sedento, de a ouvir,/a água, num murmúrio de cantiga,/ajuda a Serra a dormir.// […] A minha alma sente-se beijada/pela poalha da hora do Sol-pôr//e eu pressinto que a Noite, nesse instante/se vai ajoelhar… Nem só o pendor romântico desta fala íntima se revela neste poema, também o seu lado místico percorre grande parte da lisura simbólica do seu discurso poético.
O poeta tem, como ser racional, a certeza que os seus poemas, mesmo quando debruçados sobre as condições de vida e de trabalho dos explorados, tem voz frágil, ressonância limitada, que é apenas um entre iguais: Quando eu nasci,/ficou tudo como estava/nem homens cortaram veias,/nem o Sol escureceu,/nem houve estrelas a mais./Somente,/esquecida das dores,/minha Mãe sorriu e agradeceu. No entanto, Sebastião da Gama não deixou de estar atento à pobreza, ao país da fome, ao país da miséria que o fascismo havia imposto à generalidade do povo, apesar de haver Sol e Mar. Nesse contexto, o poeta sabe que a sua voz se alarga e ganha dimensão de denúncia e de resistência contra um tempo de abutres: Meu País desgraçado, escreve ele no livro Cabo da Boa Esperança, acrescentado, Porque fatal engano!/Que malévolos crimes/teus direitos de berço violaram?//Meu Povo/de cabeça pendida, mãos caídas/de olhar sem fé/- busca, dentro de ti, fora de ti, aonde/a causa da miséria se te esconde//E em nome dos direitos que te deram a Terra, o Sol, o Mar,/fere-a sem dó/com o lume do teu antigo olhar//Alevanta-te, Povo!
Mesmo dizendo-se ignorante, Nasci para ser ignorante/Mas os parentes teimaram/(e dali não arrancaram)/sem fazer de mim estudante, Sebastião da Gama foi um pedagogo lúcido e empenhado, inscrevendo no seu ainda actualíssimo Diário, algumas pertinentes reflexões: O que interessa mais que tudo é ensinar a ler. Ler sem que passe despercebido o mais importante – e às vezes é pormenor que parece coisinha de nada. Ler, despindo cada palavra, cada frase, auscultando cada entoação de voz para perceber até ao fundo a beleza ou o tamanho do que se lê.
Assinalando o Centenário do Nascimento de Sebastião da Gama, a Câmara Municipal de Setúbal, com a sensível dignidade com que sempre cuida das coisas da Cultura, para além de conferências, teatro e música, apoiou a publicação da antologia Por Mim Fora, organizada e prefaciada pelo escritor e investigador Ruy Ventura e editada pela Officium Lectionis, editora independente sediada no Porto, com o patrocínio da Câmara Municipal de Estremoz, cidade onde o poeta leccionou e viveu, que marca o reencontro com a obra do grande poeta da Arrábida. Associando-se à efeméride, a Junta de Freguesia de Azeitão publicou o livro infantil Sebastião, O Menino que Nasceu Poeta, de Idalina Veríssimo, com ilustrações de Cristina Arvana.
Tal como Sebastião da Gama, também nós sabemos que pelo sonho é que vamos, ou seja, continuamos a acreditar nas utopias possíveis.