Porto Maneira de Olhar – crónicas e memórias, de João Pedro Mésseder

Domingos Lobo

A obra é um impressivo roteiro de João Pedro Mésseder pelo seu Porto amado

Os poetas, os escritores, os cineastas têm o raro sortilégio de eternizar as cidades, de as mitificar, de no-las dar a ver de outro modo, sobre outros e inesperados ângulos e, nesse olhar perscrutador, sábio e sensitivo, tornar singular o que, ao nosso distraído olhar, nos pareceria banal. É esse privilégio de nos revelar o oculto, o que João Pedro Mésseder, nado e criado no Porto, nos traz com este seu belíssimo livro Porto Maneira de Olhar – crónicas e memórias: singulariza, introduz na paisagem granítica da cidade um modo substantivo, humano, histórico, nostálgico, rememorativo de a habitar. É um Porto outro este que o olhar culto e afectivo de Mésseder capta com subtil sageza e nos dá a ver como se abrisse o seu álbum íntimo.

As ruas, todas as ruas, avenidas e praças que o autor nomeia, têm história(s), um prédio, um solar, uma simples «ilha» onde o povo luta e resiste, entre paredes húmidas, janelas toscas e tanques de lavar roupa. Os que vivem de coração opresso, a aguardar a notícia da expulsão para um qualquer subúrbio alheio que os arranque do seu chão, dos vizinhos, do convívio, dos hábitos, do trabalho.

Há, neste Porto de Mésseder, sempre um arquitecto que nas suas ruas, nas fachadas de velhos prédios, nos seus largos, inscreveu obra digna de registo, um poeta que ali viveu, um escritor que deixou no rasto das palavras um capítulo de exaltação ao burgo, que descreve a rua onde viveu, como António Rebordão Navarro, justamente lembrado, como outros, pelo poeta. Com ele percorremos a pé, porque é assim que deve ser se queremos sentir a alma das cidades, a longa e sinuosa Rua do Bonjardim, saindo da Praça Marquês de Pombal e o primeiro edifício que dá nas vistas, no passeio esquerdo, é um imponente palacete de azulejos verdes, tipo chalet, com um torreão hexagonal de pináculo, rodeado de um belo jardim com palmeiras e pinheiros-mansos.

A Rua do Bonjardim, talvez a mais longa descrição deste livro, foi uma das ruas que eu percorri por diversas vezes, nos idos de 2008, quando no Porto tentava encontrar cenários para o meu romance Cartografia de Ossos. Mesmo trazendo na bagagem dois roteiros essenciais de Hélder Pacheco, Porto e Porto: da Cidade e da Gente, o meu desatento olhar perdeu muito desse Porto dos pormenores, da essência de um burgo que ainda mantém traços fecundos de uma riquíssima história, que se inscreve nas portadas das casas, nas lojas, nos cafés, no linguajar festivo, que Mésseder refere logo numa das primeiras crónicas deste livro, saudavelmente transgressor, do seu povo.

O autor vai descrevendo com minúcia e gosto essa longa rua e as ruas que com ela confinam: a Rua da Bial, de Santa Helena, a do Paraíso e a de Olivença, não deixando de regressar ao palacete que abre a crónica, cujo terá pertencido ao editor Mário Figueirinhas, que publicou Luísa Dacosta e Sophia. Rua de contrastes, que expressa, na sua progressão secular, os diversos estratos sociais que se espalham pela urbe: as melhores casas erguem-se já perto do Marquês. As mais baixitas, populares e pobres estão para baixo da Rua do Paraíso, misturadas com «ilhas» e restos de «ilhas».

Este impressivo roteiro de João Pedro Mésseder pelo seu Porto amado (é tocante o modo como o autor evoca os seus recantos, os passeios com a mãe, as memórias comuns que se entrelaçam cúmplices: as idas ao Bolhão, a descoberta da música, da poesia, o Douro e as suas margens), que percorre as páginas destas crónicas em que os artistas que a habitaram e habitam (pintores, escultores, poetas, actores, escritores, arquitectos), até aqueles que a cidade acolheu e a fizeram sua (Eugénio de Andrade, Ilse Losa), fazem parte integrante deste álbum de memórias, de êxtases perante o edificado e as suas histórias, de reconhecimento, de apego pelos seus recantos, pelas pedras, as pontes, as escadinhas (exemplar o modo como o autor descreve a subida ao Gólgota), as fontes, os jardins, as casas, os cinemas, as igrejas, os liceus, o Café Piolho dos dias reviralhos, a Rua do Heroísmo das malfeitorias da PIDE, a Foz, a Ribeira, os lugares que fazem do Porto uma cidade única, não apenas a sua beleza agreste e dúctil, mas as gentes que a edificaram e as que nela habitam.

Porto Maneira de Olhar – crónicas e memórias, será, junto com outros títulos sobre a cidade tripeira de Germano Silva ou Hélder Pacheco, o roteiro crítico/poético, nostálgico e lúcido indispensável para os que amam a Invicta e a querem conhecer para além do telão boçal e sem alma, para turista consumir. A cidade de Mésseder revela-nos a luz que nela brilha intensa, muito para além do cinzento das pedras e de Nicolau Nasoni.




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