Kissinger, cem anos sem perdão

António Santos

A morte é a verdadeira maioria silenciosa – e é absolutíssima: para cada coração que ainda bate, 15 houve que não voltarão a bater. Aos cem anos, o coração frio de Henry Kissinger inscreveu finalmente o dono na maioria dos calados. Mentiu, em 69, quando disse aos jornalistas que dentro do envelope levava a Playboy. Na realidade era o discurso da maioria silenciosa, com que Nixon justificaria a matança de um milhão de pessoas na Indochina. Nos oito anos em que comandou a política externa dos EUA entre 69 e 76, ao leme do Departamento de Estado e do Conselho de Segurança Nacional, Kissinger mentiria muitas vezes – e mataria muitas mais.

A lista de crimes de guerra de Kissinger não cabe neste artigo. Sabendo perdida a guerra do Vietname, prolongou-a futilmente até 75 – «para sair com honra», diria – reforçando os bombardeamentos com napalm e agente laranja e levando-os também ao Laos e ao Camboja. Neste último país, ordenou a Operação Menu: 540 000 toneladas de bombas contra «tudo o que se mexa». Só na Indochina, assinou a sentença de morte de um milhão de seres humanos. Na América Latina da Operação Condor foi responsável por uma dezena de golpes de Estado que instalaram sanguinários ditadores fascistas na Argentina, Uruguai, Bolívia, Brasil ou Chile, onde orquestraria o derrube do presidente democraticamente eleito, Salvador Allende, para impor a barbárie de Pinochet. «Não sei porque temos de ficar a assistir enquanto um país se torna comunista por causa da irresponsabilidade do seu povo», explicaria.

Noutras paragens, autorizou o genocida indonésio Suharto a massacrar 200 000 timorenses, «É importante que o que quer que tenhas de fazer, sê bem-sucedido rapidamente», dir-lhe-ia antes da invasão. Quando o Paquistão ocidental desatou a guerra no que hoje é o Bangladesh, não hesitou em apoiar o genocídio de meio milhão de pessoas. Quando a Índia parecia dançar fora de ritmo, prescreveu «uma grande fome» como correctivo. Apoiou os regimes racistas da África meridional e o golpismo mais reaccionário em Angola e Moçambique. Salvou Israel em 73, armando-o até aos dentes. Apoiou os regimes fascistas de Espanha, Grécia e Portugal onde, já depois do 25 de Abril, procuraria travar a revolução apoiando «maoístas», «socialistas» e tudo o que, dividindo, o ajudasse a reinar. Segundo o historiador de Yale, Greg Grandin, Kissinger foi responsável por mais de quatro milhões de mortes. Assim garantiu a maioria silenciosa e sepulcral e por isso ganhou um Nobel da Paz.

Amado pelos poderosos, desavergonhado e impiedoso, o príncipe sórdido do império será recordado como um oportunista voraz que, fugindo do nazi-fascismo alemão, fez carreira copiando os seus métodos. Mas o comportamento de Kissinger, como a sua existência parda, foi pouco mais que uma roda na grande engrenagem da máquina imperialista. Foi menos traço de personalidade, do que necessidade política: submeter, por todos os meios, os povos que ousem trilhar caminhos soberanos e saiam das cofragens da hegemonia do capitalismo estado-unidense – afogar em sangue os povos que exerçam a verdadeira soberania.

Recentemente confrontado com o seu envolvimento no golpe de Estado no Chile, Kissinger responderia que «Obama fez o mesmo na Líbia» – tinha razão. Cada guerra cria as condições que justificam a guerra seguinte, numa espiral infinita que funde as duas cabeças do partido único: de Hillary Clinton a Condoleeza Rice, não havia democrata ou republicano que renegasse Kissinger porque o imperialismo é a pedra-de-toque do bipartidarismo americano.

Que legado sobra? Kissinger semeou genocídios, escorou ditadores, traficou armas, espalhou a fome, destruiu cidades, mentiu, manipulou e ameaçou, mas não venceu. Sobram cem anos de podridão.




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