Chico e Geraldo Vandré cantando coisas de amor
Compositores, cantores e músicos usaram a sua arte para combater a ditadura militar brasileira
Um golpe de estado levado a cabo pelas forças militares mais reaccionárias deixou o Brasil e o povo brasileiro a braços com uma ditadura militar feroz que, legislando contra a Constituição através de Actos Institucionais (AI), colocou o país num colete de forças afivelado por uma censura apertadíssima e uma repressão cerrada, tudo feito à sombra de novas leis que tornavam a escassez das liberdades perfeitamente legal. Houve prisões, tortura, assassinatos, exílios, num período negro da História brasileira que começou em 1964 e durou até 1985. O «perigo do comunismo» era um dos mais fortes argumentos dos militares, que viam esse fantasma manifestar-se em muitíssimas actividades, entre elas os grandes festivais de canções que estavam então no apogeu da sua popularidade.
Sucedeu então o que era natural que acontecesse, ou seja, autores, compositores e intérpretes de cantigas tentavam levar a água ao seu moinho através de canções que, camufladas ou não, tinham como objectivos o sucesso, também comercial, e o beliscão no sistema ou, nas palavras de José Mário Branco num contexto português de anos mais tarde, queriam «meter um pauzinho na engrenagem».
Os cantores e cantautores brasileiros meteram mesmo esse incómodo, para o poder, pauzinho na engrenagem, lutando com suas músicas e suas palavras contra a ditadura e ajudando – e de que maneira! – a motivar os milhões de pessoas que participaram num «movimento de massas sem precedentes», como foram chamados os comícios de S. Paulo e do Rio de Janeiro, entre 1983 e 1984, de que o movimento Diretas-Já, de que faziam parte Chico Buarque, Fafá de Belém (participou em 32 comícios!), Beth Carvalho, Martinho da Vila e outros, exigia eleições directas para a presidência da República. Faz agora 40 anos.
Duas estórias a propósito
Foi neste tempo de lutar e cantar lutando que se encontraram, por duas vezes, Chico Buarque e Geraldo Vandré, «adversários» em dois grandes festivais promovidos pela Record e pela Globo, em 1966 e 1968, respectivamente. Em ambos o protagonismo dos dois cantautores foi evidente e importante.
Em ‘68, a canção mais interventiva, Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, que depressa passou a ser o hino da resistência civil brasileira (e não só, pois não tardou a ultrapassar fronteiras) era, também, a preferida do público. Ficou em segundo lugar, atrás de Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim. Apregoava que «há soldados armados, amados ou não / quase todos perdidos de armas na mão /nos quartéis lhes ensinam / a antiga lição / de morrer pela pátria / e viver sem razão» e denunciava a fome nos campos, «em grandes plantações», a falta de liberdade e o mais da situação do Brasil, desaguando num refrão definitivo: «vem, vamos embora, que esperar não é saber / quem sabe faz a hora, não espera acontecer».
Mais de 20 anos depois Walter Clark, que era, na altura director da Globo, confirmou que tinha recebido ordens do Exército para que a cantiga, que também ficou conhecida como Caminhando, não ganhasse o festival… A apimentar tudo isto, a canção de Caetano Veloso É Proibido Proibir (palavra de ordem popularizada no Maio de 68 em França) foi desclassificada nas eliminatórias e Caetano aproveitou o seu tempo para fazer um discurso «pouco simpático» para o poder.
Geraldo Vandré viu-se perseguido e ameaçado de tal forma que decidiu partir para o exílio. Caminhando esteve proibida até 1979…
Já em 1966 também Vandré e Chico Buarque tinham estado, no Festival da Record TV, na «luta» pelo 1.º lugar. O certame foi em S. Paulo. Na final, pode-se dizer que o Brasil parou, de tal modo que houve algumas salas de Teatro e de Cinema que fecharam as portas porque só havia público para o festival. E então deu-se a «bronca»: Chico levou Nara Leão a cantar A Banda e Vandré pôs Jair Rodrigues a interpretar “Disparada”.
Estava ainda o júri reunido quando Chico Buarque soube que a sua canção seria a vencedora. Então fez saber que se ganhasse sózinho devolveria o prémio em público. Achava injusto que Disparada não ganhasse e propôs um empate. Com o aplauso de muitos e a contragosto de outros, a verdade é que A Banda e Disparada ganharam, empatadas, o grande Festival desse ano.
Quando a decisão foi anunciada publicamente ouviram-se os aplausos fortes e comovidos de quem percebeu que tinha acabado de ver a banda passar cantando coisas de amor.