A ciência ao serviço da paz e do desenvolvimento

Ilda Figueiredo

Apela-se ao envolvimento dos cientistas no debate público em torno da importância da ciência ao serviço da paz e do desenvolvimento

Por ocasião do Dia Mundial da Ciência para a Paz e o Desenvolvimento, que a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) celebra a 10 de Novembro desde 2001, importa assinalar que, em momentos tão complexos e difíceis no plano internacional, não só é importante manter os cidadãos bem informados sobre as descobertas e avanços científicos, como importa exigir que estes sejam colocados ao serviço da paz, do desenvolvimento, do progresso social, e não da exploração, da opressão e da guerra.

O envolvimento de cientistas na defesa da paz esteve ligado à formação do Conselho Mundial da Paz, em 1949-50, que teve como seu primeiro presidente o cientista de Física Nuclear, e prémio Nobel, Frédéric Joliot-Curie. Foi no âmbito deste movimento da paz que, em março de 1950, se lançou o Apelo de Estocolmo contra as armas atómicas, que recolheu milhões de assinaturas em todo o mundo, tendo sido determinante para impedir a repetição do horror de Hiroxima e Nagasáqui.

Um movimento que, durante décadas, contribuiu para a luta em defesa da paz, para o desanuviamento das relações internacionais e para o êxito da Conferência de Helsínquia sobre Segurança e Cooperação na Europa, que terminou em 1975, e em que o então Presidente da República de Portugal, Costa Gomes, participou. E cujos valores e princípios em prol da paz, constantes na sua Acta Final, convergem com os que se encontram consagrados na Constituição da República Portuguesa, adoptada a 2 de Abril de 1976.

Este movimento internacional da paz, com as suas organizações membro nacionais, em que portugueses participaram – como Manuel Valadares, Ruy Luís Gomes e Maria Lamas, entre muitos outros – e que continuam a participar, através do Conselho Português para a Paz e Cooperação. Sempre defendendo acordos internacionais visando o desarmamento, nomeadamente o nuclear, como agora se continua a pugnar, designadamente insistindo que Portugal assine e ratifique o Tratado de Proibição das Armas Nucleares, aprovado no âmbito da ONU, em Julho de 2017, havendo mesmo uma petição com esse objectivo.

Unir esforços pela paz

Vivemos um momento grave, com ameaças à paz em várias zonas do mundo e a multiplicação de conflitos e guerras, com destaque para o Médio Oriente e a Europa. Vive-se, na Faixa de Gaza, uma das mais graves crises humanitárias dos últimos anos, com os bombardeamentos indiscriminados e permanentes e o cerco aos territórios palestinianos ilegalmente ocupados por Israel, resultado da política da guerra e da ocupação israelita, que conta com o apoio dos EUA, em vez da resolução pacífica do conflito, do respeito dos direitos nacionais do povo palestiniano e das resoluções da ONU.

Impõe-se a exigência do cessar-fogo imediato, o reforço do movimento e da cultura da paz e o apelo a que a ciência e a tecnologia sejam colocadas ao serviço da paz e não da guerra, incluindo por aqueles que dedicam a sua vida à ciência.

A importância da cultura e da educação para a paz foi um dos temas em destaque no III Encontro pela Paz, realizado em Vila Nova de Gaia no dia 28 de Outubro, com o lema «Nos 50 anos de Abril, pela Paz todos não somos demais». Contou com o envolvimento de cerca de 100 organizações e 800 participantes e dele saiu um Apelo à defesa da paz.

Nesse Apelo, partindo-se do artigo 7.º da Constituição da República Portuguesa, reafirma-se a defesa da solução pacífica dos conflitos internacionais; o direito dos povos, incluindo à autodeterminação e independência; o desarmamento geral e simultâneo; a dissolução dos blocos político-militares; a vontade de continuar a unir esforços na defesa de uma ordem internacional capaz de assegurar a paz e a justiça nas relações entre os povos e a cooperação com todos os outros povos para a emancipação e o progresso da humanidade.

É também neste quadro que, saudando os investigadores, cientistas, professores e todos quantos se dedicam à ciência e sua divulgação, se apela ao seu envolvimento no debate público em torno da importância da ciência ao serviço da paz e do desenvolvimento, das descobertas e avanços científicos em defesa da resolução dos problemas e da emancipação da Humanidade, da superação das injustiças e desigualdades, por um mundo melhor.




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