Contradições entre Ucrânia e Polónia à beira de eleições

Sob o pano de fundo de eleições legislativas, as relações entre Varsóvia e Kiev pioraram, depois da Ucrânia apresentar queixa junto da Organização Mundial do Comércio contra a Polónia, Hungria e Eslováquia. Em causa está a proibição da importação de cereais ucranianos.

Presidente polaco compara Ucrânia a «náufrago a afogar-se»

O presidente polaco, Andrzej Duda, voltou a criticar o governo de Volodímir Zelensky pela sua actuação no diferendo sobre os cereais ucranianos, cuja importação Varsóvia proibiu, juntamente com a Hungria e a Eslováquia. «Não podemos permitir que o cereal ucraniano se venda no mercado polaco sem nenhum controlo», afirmou o dirigente polaco numa entrevista ao canal televisivo Bloomberg. «Também temos os nossos próprios cidadãos, temos que zelar pelos seus interesses», justificou.

Varsóvia esclareceu que a proibição incide sobre a importação de cereais, mas não sobre o seu trânsito através de território polaco.

A tensão entre Kiev e Varsóvia aumentou nos últimos dias, depois da Ucrânia ter apresentado, a 18 de Setembro, uma queixa junto da Organização Mundial de Comércio (OMC) contra a Polónia, a Hungria e a Eslováquia.

Tal como a Polónia, a Hungria já antes decidira impor uma proibição temporária às importações de cereais ucranianos. O governo da Eslováquia também tinha anunciado a decisão de suspender a importação de trigo e outros produtos procedentes da Ucrânia.

O governo da Polónia, um dos principais aliados europeus de Kiev, já explicara noutras ocasiões que a medida restritiva face ao cereal ucraniano tinha como objectivo proteger os agricultores do seu país, que advertiram correr o risco de falir devido à importação de toneladas de cereal da Ucrânia.

Umas horas antes das declarações ao canal de televisão norte-americano, o presidente da Polónia, falando à imprensa durante uma deslocação a Nova Iorque para participar na Assembleia Geral das Nações Unidas, tinha comparado Kiev com uma pessoa que se afoga e pode arrastar com ela outras pessoas para o fundo. «Eu compararia [a Ucrânia] com uma pessoa que se afoga, muito perigosa porque pode arrastar-te para o fundo. Pode, simplesmente, afogar o seu resgatador», disse Andrzej Duda, que cancelou à última hora um encontro com Zelensky, na sede da ONU.

Também o ministro para os Assuntos da Europa, Szymon Szynkowski, advertiu que, face à queixa ucraniana junto à OMC, Varsóvia poderia pôr fim ao seu apoio a Kiev. A Polónia é considerada um aliado chave, já que é uma via de trânsito das armas que a Ucrânia recebe dos seus parceiros ocidentais.

À medida que se aproximam as eleições legislativas na Polónia, marcadas para 15 de Outubro, o governo de Andrzej Duda e o seu partido Lei e Justiça, de extrema-direita, têm procurado distanciar-se de Kiev com a intenção de ganhar o voto das comunidades rurais polacas, que se viram afectadas pelo fluxo de produtos agrícolas ucranianas no país.

Os governantes tentam também fazer diminuir o descontentamento na sociedade polaca pelo exorbitante custo económico do apoio à Ucrânia e da colossal militarização da Polónia, que provocou cortes financeiros em muitas áreas. A Polónia anunciou na semana passada que está a analisar não estender o apoio aos refugiados no próximo ano, depois de aceitar no país mais de dois milhões de refugiados ucranianos desde 2022 e de o próprio Andrzej Duda ter declarado recentemente que não há perspectivas, a curto prazo, para o ingresso da Ucrânia na NATO.

 



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