Quando Van Gogh foi n.º 1 na tabela de singles do Reino Unido
O tema «Vincent», também conhecido por «Starry Night», é uma homenagem de Don McLean a Vincent Van Gogh
«American Pie» é título de um álbum do cantautor norte americano Don McLean, lançado em 1971 e que inclui a canção que dá o nome ao disco e, entre outras, «Vincent», mais conhecida por «Starry Night», expressão muito repetida no refrão da cantiga. Alguém postou no Facebook, recentemente, que «a maior parte das pessoas que ouviu e ouve ‘Starry Night’ não sabe que a canção é uma homenagem a Vincent Van Gogh».
Sabendo ou não, a cantiga é, de facto, uma homenagem ao grande pintor holandês pós- impressionista, focada num quadro que pintou quando estava internado num hospício, em 1889. «Starry Night» (noite estrelada) é o título do quadro e retrata uma noite onde é notória a predominância das estrelas, pelo seu tamanho inclusive, num céu que emoldura uma vila pequena, ciprestes e outros elementos da predilecção de Van Gogh, uma paisagem que o pintor via da janela do seu quarto, acrescentada com pormenores que incluiu e não faziam parte do que vislumbrava do seu «posto de observação».
Muito se escreveu sobre esta obra, uma das mais famosas de Van Gogh. As interpretações críticas giram à volta de «um olhar visionário produto de um estado de grande agitação». De facto, Vincent Van Gogh começara a defrontar-se com problemas de saúde mental, que ele próprio reconhecia e, por isso, foi por sua vontade que foi acolhido no hospício de Saint-Rémy de Provence. Porém, por mais que se escreva sobre «Starry Night», foi Don McLean quem melhor e de forma mais simples e entendível interpretou, cantando, essa pintura, homenageando, ao mesmo tempo, o seu autor.
«Vincent», ou «Starry Night», não se ficou pela faixa de «American Pie» ou pelos concertos de Don McLean. Muitos músicos pegaram no tema do autor-intérprete americano e cantaram-no, como aconteceu com Jonathan Richman em 1985 (que também escreveu uma canção sobre Vermeer, outro grande pintor holandês, do século XVII), sendo «Vincent» retomado por Enojuani Rautavaara, compositor clássico finlandês, que lhe dedicou uma ópera em três actos em 1990, e também por Henry Dutilleux, na obra «Timbres, Space, Mouvement», cujo sub-título é «Starry Night», ou até Bob Dylan, numa versão que não foi comercializada.
Eis o que Don McLean fez: pôs Van Gogh nos nossos ouvidos, abriu caminho a outros músicos que aplaudiram cantando e compondo, Vincent Van Gogh e pôs este Vincent, 100 anos depois de pintar «Starry Night», no top one da tabela de vendas de singles no Reino Unido, em 1972, durante duas semanas.
O autor e intérprete de «American Pie», um retrato duro da sociedade norte-americana, que, no início de carreira, cantava em clubes e escolas e apoiava as causas ambientais, veio dizer-nos por música que, afinal, sempre há estrelas no céu. Algumas até foram pintadas por Van Gogh…