Armistício na Coreia foi há 70 anos

Com a assinatura do armistício a 27 de Julho de 1953, as armas calaram-se na Coreia, após três anos de violentos combates. Os EUA não atingiram então os seus objectivos, mas continuam com forte presença militar no país, que permanece dividido.

Sete décadas passadas, os EUA mantêm forte presença militar na Coreia

A guerra que dilacerou a Coreia entre Junho de 1950 e Julho de 1953, e que formalmente ainda continua (já que não foi assinado até hoje qualquer tratado de paz, mas apenas um armistício), ceifou a vida a mais de um milhão de pessoas e ditou a divisão do país, que perdura até aos nossos dias.

Na sequência da rendição japonesa na Segunda Guerra Mundial, o poder na Coreia foi disputado por duas tendências antagónicas: de um lado, as forças de resistência anticolonial que libertaram o Norte com o apoio da União Soviética; do outro, antigos colaboradores das forças de ocupação japonesas instalados no poder, a Sul, pelos EUA. Mas caracterizar este conflito apenas como uma guerra civil é redutor. Foi também – e sobretudo – uma agressão imperialista contra o povo coreano.

Naqueles primeiros anos após a derrota do nazi-fascismo, o imperialismo norte-americano estava apostado em travar o impetuoso movimento de libertação nacional e emancipação social que sacudiu o mundo. Determinados em impedir uma Coreia unificada, soberana e, com grande probabilidade, orientada para o socialismo, os ocupantes norte-americanos (que, ao contrário dos soviéticos, não saíram do território em 1948, como estava previsto) instigaram a repressão de patriotas, sindicalistas e comunistas, boicotaram as eleições gerais previstas para 1948 em todo o território, forçaram a divisão do país – a República da Coreia, a Sul, foi proclamada unilateralmente nesse mesmo ano.

A tensão constante que desde cedo se verificava junto ao paralelo 38, tornou-se a partir de Junho de 1950 numa guerra generalizada. Autores como Bruce Cummings ou Wilfred Burchett rejeitam a tese dominante – e convenientemente simplista – segundo a qual o «Norte invadiu o Sul», apresentando informações e fontes relevantes sobre o papel dos EUA naquele trágico desfecho.

Agressão e resistência
A agressão norte-americana à Coreia, perpetrada sob a égide das Nações Unidas (perante a ausência do representante soviético no Conselho de Segurança e com a China ainda representada por Taiwan), foi brutal: o próprio general Curtis LeMay estima que em três anos cerca de 20 por cento da população coreana terá sido morta pelas forças norte-americanas, mas a realidade pode até ser mais grave.

As principais cidades foram arrasadas por bombardeamentos aéreos, assim como muitas aldeias, fábricas e infra-estruturas. A utilização massiva de napalm e armamento biológico motivou campanhas do Conselho Mundial da Paz e de outras organizações internacionais, desde logo de médicos. A brutalidade da agressão imperialista ficou registada na magistral obra de Pablo Picasso «Massacre na Coreia», com evidente inspiração nos «Fuzilamentos» de Goya.

Apesar de toda a brutalidade e dos poderosos meios que empregou naquele conflito, os EUA não atingiram o seu principal objectivo, a «unificação» de toda a Coreia sob a sua alçada e controlo. A bravura dos patriotas coreanos e dos voluntários chineses, o apoio político e logístico da União Soviética e a solidariedade expressa nos quatro cantos do mundo assim o determinou.

Depois da criação da NATO e da permanente tensão em torno da Alemanha, a guerra na Coreia foi o acontecimento mais perigoso dos primeiros anos da chamada «Guerra Fria», durante o qual pendeu sobre a Humanidade a possibilidade de novos ataques nucleares – não só sobre a Coreia, mas também sobre a República Popular da China e a União Soviética. A hipótese chegou a ser equacionada nos círculos de poder dos EUA, mas o forte movimento de solidariedade com a luta do povo coreano que então se verificava contribuiu para que tal intenção acabasse por não se concretizar.

Sete décadas passadas, os EUA mantêm no Sul da Península coreana cerca de 30 mil militares, para além do sistema de mísseis Thaad. A retirada de ambos é um primeiro e decisivo passo para o avanço do diálogo intercoreano visando a reunificação pacífica do país e a paz na região.

 



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