Querubim Lapa, um artista dos novos tempos

Manuel Augusto Araújo

Querubim Lapa foi o grande renovador da arte em cerâmica

No Museu do Neo-Realismo (MNR), em Vila Franca de Xira, até ao dia 29 de Outubro pode ser visitada uma exposição de Querubim Lapa, da sua obra pictórica e gráfica, desenhos, aguarelas, guaches, dos anos 40 e 50, quando era um dos mais activos artistas do movimento neo-realista. São centenas de obras, entre elas as oito pinturas e um desenho da sua colecção particular que doou a esse museu.

O que ressalta desta exposição é o que, por facilidade de expressão, se poderá classificar de contaminação lírica na obra de Querubim dos temas centrais desse movimento, sublinhando e dramatizando o trabalho, os seus protagonistas, as catástrofes sociais, por vezes com algumas simplificações que em nada diminuem a sua importância estética que aliava a denúncia política à prática artística. A sua tradução nas artes e nas letras é extremamente diversa. Querubim bem os demonstra nas suas séries ou em temas isolados em que a sua marca autoral nunca se perde, conciliando o seu empenhamento político na denúncia social com uma extraordinária expressão lírica, talvez mesmo a mais evidente e acentuada entre todos os outros seus companheiros das artes e das letras que lutavam com as suas armas específicas, mas não só, contra a ditadura fascista-salazarista, por uma mudança política radical que ele, como muitos outros, acabaram por viver e celebrar com a Revolução de Abril.

Querubim Lapa tem um percurso pessoal muito particular iniciado na pintura com aulas com o pintor Trindade Chagas, matriculando-se a seguir na Escola António Arroio, onde foi aluno de Lino António. Quando tudo parecia que era a pintura o que mais o atraía, até pela notoriedade alcançada com a sua participação em exposições individuais e colectivas, deriva para a escultura, que cursa em Lisboa e no Porto.

Esta confluência de aquisição de saberes artísticos e técnicos acabaria por se consolidar noutra área, a cerâmica, onde Querubim Lapa se ira afirmar como o grande renovador de todo um novo caminho que abriu perspectivas inesperadas tanto na exploração das práticas usuais que se reformaram radicalmente como nas temáticas em que se amalgamavam, sem hierarquias que não fossem as estéticas, as imagens realistas e as abstratizantes, mas sempre com uma tónica lírica que nunca o abandonou e que é bem visível no magnífico painel que realizou para a cafetaria do Museu do Neo-Realismo.

A sua colaboração com arquitectos como Chorão Ramalho ou Conceição Silva, marca toda uma época e uma viragem podendo mesmo afirmar-se que, na cerâmica em Portugal, há toda duas eras, uma antes e outra depois de Querubim Lapa, épocas marcadas por outros períodos de artistas muito marcantes como Rafael Bordalo Pinheiro, mas em que não houve um corte tão radical como o realizado por Querubim.

A sua obra já foi objecto de várias e importantes exposições colectivas, na Fundação Calouste Gulbenkian em 1981 e 1982, no Museu Nacional do Azulejo (MNA) em 1978 e 1991, e uma retrospectiva da obra cerâmica no MNA em 1994 e agora esta no MNR. A sua obra, além destas exposições de relevo, tem sido objecto de vários estudos e de algum modo as exposições dão-nos uma visão fragmentada de obra tão diversa e vasta que há muito merecia ser objecto de uma grande retrospectiva que nos desse uma visão global mais integradora, o que nos parece já deveria ter sido realizado pelo Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado.

Aqui fica a sugestão que em nada invalida uma visita a esta exposição no MNR deste artista polifacetado que até ao fim dos seus dias foi um homem politicamente empenhado.



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