Combater a mentira xenófoba e anti-imigrante
13% das receitas da Segurança Social têm origem nas contribuições dos imigrantes
Vectorarte
Com maior ou menor expressão mediática, mas com muita candonga por via de redes sociais, e através de círculos com naturezas diversas, pouco escrutinados mas nem por isso menos influentes, é espalhada a mentira sobre a realidade e o papel das comunidades imigrantes.
Não sendo matéria nova, o uso desse instrumento por parte de forças racistas e xenófobas nem por isso se pode deixar de lhes dar a devida resposta. O principal objectivo que almejam é dividir. É meter brancos contra negros, muçulmanos contra cristãos, etc., desviando desde logo o olhar para a sua situação de trabalhadores, de explorados, que marca a condição da esmagadora maioria de todos, independentemente do país onde nascemos.
Para melhor atingirem esse objectivo, há que recorrer à mentira e/ou a casos (há sempre, e em tudo, excepções) para, exacerbando-os, os transformarem num problema com dimensões que, bem vistas as coisas, não têm. Quem o faz sabe que a esmagadora maioria das pessoas não vai buscar informação para racionalizar a parangona de jornal ou de discurso, que depois é posta a circular em alta escala. É o que sucede com toda a conversa sobre os imigrantes virem usufruir dos apoios sociais, roubarem o trabalho aos portugueses, patrocinarem a criminalidade, etc.
Importa pois, não com base em juízos morais, mas em factos, desmontar as mentirolas.
Entre o deve e o haver…
Há cerca de 700 mil estrangeiros em Portugal que contribuem para a Segurança Social. Os dados mais recentes disponibilizados pela Segurança Social dizem que 13% das receitas da Segurança Social têm origem nesses trabalhadores, ou seja, cerca de 1500 milhões de euros. Falamos de descontos feitos por originários dos PALOP, nepaleses, bangladeches, paquistaneses, espanhóis, britânicos, etc.
Mas os dados dizem-nos ainda mais qualquer coisa. Dizem-nos que, nos últimos oito anos, o peso das contribuições desses trabalhadores para a Segurança Social aumentou de 3 para 13%. É bem significativo. Mas há ainda mais um dado para «pôr tudo em pratos limpos»: é que entre aquilo que foi o seu contributo para o Estado e aquilo que dele receberam, há um saldo positivo de 968 milhões de euros.
Sobre a teoria de que roubam o trabalho aos portugueses, importa ter presente que o desemprego tem vindo a diminuir. Não se está aqui a apreciar, não é esse o foco deste artigo, a qualidade do trabalho – se é ou não precário, se é ou não sazonal, etc. Os dados aquilo que expressam é que, embora o número de imigrantes tenha vindo a aumentar de ano para ano, o desemprego tem vindo a descer. E não, não é porque tenha aumentado o número de portugueses a emigrar já que, em 2019, terão emigrado cerca de 80 mil portugueses e em 2021 cerca de 60 mil, ou seja, menos 20 mil.
Portanto, tem aumentado o número de estrangeiros, tem diminuído o número de portugueses a sair de Portugal e tem diminuído o desemprego.
E o crime? Pois...
Por fim, a questão da criminalidade. A ver por aquilo que são as parangonas noticiosas, repetidas de manhã à noite, com directos de muitos minutos (e comentário como se fosse uma prova de ciclismo), mesmo quando a polícia ainda está a recolher prova, etc., parece que vivemos no faroeste. E quando não é cá, transmite-se a matança ocorrida algures nos Estados Unidos: o que importa é manter o clima psicológico do medo e da desgraça.
Contudo, por muito que haja aspectos vários a melhorar e a corrigir em matéria de segurança das populações, e o PCP tem um vasto e inigualável património de propostas, a realidade é diferente da percepção. Em 2021, existia em Portugal o já acima referido número de cerca de 700 mil estrangeiros e havia 1600 reclusos estrangeiros, em 2013 havia 2600 reclusos estrangeiros.
Como sempre, e particularmente nestas matérias que mexem com a segurança de todos e de cada um, estão mais à flor da pele os sentimentos de preocupação. É exactamente por isso que este é um assunto tão querido para os que gostam de nadar nas águas do medo.