Uma vida insubmissa
A obra de Sidónio Muralha, mesmo a dirigida às crianças, tem um marcado cunho humanista
No Museu do Neo-Realismo, até dia 22 de Outubro, pode ser visitada a exposição «Sidónio Muralha, A caminhada Insubmissa», sobre a vida e a obra desse homem das letras que muito jovem aderiu ao movimento neo-realista por opção política e estética, integrando-se com outros artistas «nesse caminho partilhado, com expressões diversas de empenhamento, protagonizaram as ideias do artista enquanto intelectual e da cultura não como mera arma ou derivação da política mas como campo de batalha onde se evidenciavam a centralidade política da arte e o seu papel na emancipação humana», como Carina Infante do Carmo tão excelentemente sintetizou em A Noite Inquieta / Ensaios sobre Literatura Portuguesa, Política e Memória, sublinhando a «individualidade das suas obras e dos rumos evolutivos que cada um tomou».
Sidónio Muralha, por circunstâncias diversas obrigado a ser um viajante pelo mundo, nunca deixou de apontar contra a exploração capitalista, o colonialismo, a guerra, lutando contra as injustiças e as desigualdades sociais. Tem um percurso muito singular, em que há que destacar a importância que dedicou à literatura infantil, fundando no Brasil, onde acabaria por morrer, com Fernando Lemos a editora Giroflé que revolucionou e é ainda hoje um paradigma no panorama editorial das publicações dirigidas às crianças, e onde publicou A Televisão da Bicharada (1962), «I Prémio da Bienal do Livro de São Paulo».
Se com o seu primeiro livro de poemas, Beco-Passagem de Nível (1942), se tinha de imediato distinguido como um dos poetas e contistas cimeiros do movimento neo-realista, mais se afirmou como um desbravador e figura destacadíssima na literatura infantil com os mais de quinze livros de contos e poemas que lhes dedicou, o que foi reconhecido em 1976, quando é distinguido com o «Prémio Meio Ambiente na Literatura Infantil» atribuído ao livro Valéria e Vida, ilustrado por Fernando Lemos, e Prémio Portugal 79 – Livro para Crianças, com Helena e a Cotovia.
Nos anos 70, depois da Revolução de Abril, Sidónio Muralha regressa a Portugal para publicar uma antologia de poesia Poemas (1971) e celebrar o Portugal Libertado (1976), a sua luta de sempre.
Sua obra literária, tanto para adultos mas sobretudo para crianças, tem um cunho humanístico muito vincado.
Escreveu no Soneto Imperfeito da Caminhada Perfeita: Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas / que possam perturbar a nossa caminhada, / em que os poetas são os próprios versos dos poemas / e onde cada poema é uma bandeira desfraldada. // Ninguém fala em parar ou regressar. / Ninguém teme as mordaças ou as algemas. / – O braço que bater há-de cansar / e os poetas são os próprios versos dos poemas. // Versos brandos… Ninguém mos peça agora. / Eu já não me pertenço : Sou da hora. E não há mordaças , nem ameaças, nem algemas // que possam perturbar a nossa caminhada, // onde cada poema é uma bandeira desfraldada // e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Um soneto que é a legenda de uma vida sempre ao lado dos ventos da história, que anunciavam e anunciam as lutas sem fim para que a humanidade reencontre a sua humanidade caminhe guiada pelo sol revolucionário que desde sempre a aquece fraternal e solidariamente nessa sua longa caminhada pela libertação.
Celebremos Sidónio Muralha recuperando a memória da sua obra e vida.