Solidariedade é semente de um mundo mais justo

A solidariedade aos povos que enfrentam guerras, ocupações, bloqueios, sanções e ingerências do imperialismo e lutam pela paz, a autodeterminação e o direito ao desenvolvimento soberano é uma questão decisiva para as forças progressistas, pois é também com ela que se forja o mundo mais justo e pacífico pelo qual se batem. A América Latina e a Palestina estiveram em destaque nos últimos dias.

Os povos têm direito a definir os caminhos de desenvolvimento que entendam ser mais condicentes com as suas necessidades, culturas e tradições

Quem observar a realidade internacional apenas pela lente do chamado jornalismo corporativo pouco saberá sobre o que se passa na América Latina e nas Caraíbas. Mais empenhado em explorar até à exaustão uma determinada narrativa – parcial, falsa, mistificadora – sobre o conflito na Ucrânia ou a «ameaça chinesa», oculta o intenso confronto que se trava naquela região entre o imperialismo norte-americano, que continua a vê-la como se do seu pátio das traseiras se tratasse (numa versão contemporânea da velha Doutrina Monroe), e a vontade soberana – e irreprimível – de países e povos determinados em trilhar livremente os seus próprios caminhos, autónomos e soberanos.

Poder-se-á dizer, e com razão, que nada disto é novo: a Operação Condor, as ditaduras militares fascistas, os golpes de Estado e as invasões que marcaram o século XX encarregam-se de no lembrar. Mas não é menos verdade que à medida que a hegemonia mundial do imperialismo vai soçobrando se intensifica a ofensiva contra a soberania dos Estados e os direitos dos povos.

Isto mesmo esteve em debate numa sessão pública promovida no dia 10 pelo CPPC, na Fundação José Saramago, em Lisboa, com a embaixadora da República Bolivariana da Venezuela, Mary Flores; a segunda secretária da Embaixada de Cuba, Karla Rodriguez; o coordenador do núcleo do PT (Brasil) em Lisboa, Pedro Prola; a dirigente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), Moara Crivelente; e a presidente da direcção nacional do CPPC, Ilda Figueiredo.


Resistir a bloqueios e a sanções

Das representantes de Cuba e da Venezuela vieram denúncias do agravamento recente dos bloqueios e das sanções com que o imperialismo norte-americano pretende sufocar as respectivas economias e, dessa forma, abrir caminho às ansiadas mudanças de regime – ilegais à luz do direito internacional, mas aparentemente toleráveis na tal ordem mundial baseada em regras de que tanto falam os governantes dos EUA e da (sempre submissa) UE. Recorde-se que também no Chile, em 1973, o golpe militar fascista foi antecedido da decisão norte-americana de fazer a economia chilena guinchar de dor.

Certo é que a administração de Joseph Biden não só não aliviou os bloqueios e as sanções contra Cuba e Venezuela como até as agravou: Cuba foi mantida na vegonhosa (e hipócrita) lista dos países que alegadamente patrocinam o terrorismo e a filial norte-americana da Petróleos da Venezuela, a Citgo, foi expropriada e entregue aos sectores fascistas e golpistas da oposição venezuelana, liderada por Juan Guaidó. A República Bolivariana da Venezuela, é bom não esquecer, tem as maiores reservas conhecidas de petróleo.

As duas diplomatas lembraram que durante a pandemia os bloqueios e as sanções provocaram a perda de vidas humanas, ao colocar inúmeros – e muitas vezes intransponíveis – obstáculos à aquisição de medicamentos, vacinas e equipamentos médicos, como ventiladores: eis, em todo o seu esplendor, a vocação democrática e humanista do imperialismo, que fez e faz o mesmo por exemplo na Síria...

Resistir e avançar – é isto que está colocado aos dois países, realçaram Mary Flores e Karla Rodríguez, realçando avanços já em curso (a Venezuela foi a economia que mais cresceu na América Latina em 2022) e apontando caminhos de desenvolvimento soberano e progressista, para os quais a solidariedade internacionalista e as relações internacionais amplas e soberanas assumem um papel determinante.

Potencialidades e obstáculos

Destacando a enorme importância que a vitória de Lula da Silva nas presidenciais e a formação do seu governo representaram para a luta do povo brasileiro pelo progresso e a justiça social, Pedro Prola e Moara Crivelente deram exemplos disso mesmo: em apenas 100 dias de mandato, os salários foram aumentados e importantes programas sociais retomados, apoiando os estratos mais frágeis da população (o Brasil, recorde-se, voltou ao mapa da fome durante o governo de Jair Bolsonaro).

Valorizado foi, ainda, o regresso do Brasil à primeira linha dos processos de integração latino-americanos e caribenhos e das instituições multilaterais, como a ONU ou os BRICS.

Lembrando o processo que levou a extrema-direita ao poder – do golpe judicial que conduziu à impugnação da presidente Dilma Rousseff ao governo de Michel Temer, passando pela prisão de Lula da Silva –, os activistas brasileiros realçaram que as forças mais reaccionárias têm ainda uma forte presença no aparelho de Estado e na sociedade brasileira e relações estreitas com o imperialismo. Além disso, a própria amplitude da aliança que apoiou Lula da Silva poderá criar obstáculos à aprovação e concretização de políticas mais avançadas.

Pedro Prola e Moara Crivelente apontaram, então, ao reforço dos partidos de esquerda, organizações e movimentos sociais.

Entre a numerosa plateia encontrava-se Omar Mih, representante em Portugal da Frente Polisário, do Sara Ocidental, que nesse mesmo dia cumpria meio século de luta pela autodeterminação e independência da República Árabe Sarauí Democrática.


Nakba, resistência e a certeza de que a Palestina Vencerá

Nakba, ou Catástrofe, é como ficou conhecido o processo de expulsão massiva de populações e apagamento da história, da cultura e de tantas vidas palestinianas, iniciado há 75 anos (feitos na segunda-feira, 15) e que ainda prossegue. Alguns números mostram a dimensão desta catástrofe: só entre Maio de 1948 e finais do ano seguinte, 15 mil palestinianos tinham sido mortos pelas milícias sionistas (com a complacência dos militares britânicos) e 750 mil forçados ao exílio. Mais de 500 vilas e aldeias foram reduzidas a pó.

Como salientou o escritor palestiniano Salim Nazzal, que participou na sessão promovida, no dia 15, pelo Movimento pelos direitos do povo palestino e a paz no Médio Oriente (MPPM), na Casa do Alentejo, a Nakba não pode ser vista como algo que já aconteceu, pois ela aí está: nos colonatos que alastram, nas populações expulsas das suas casas, nos milhares de presos palestinianos nas cadeias israelitas (incluindo crianças), nos assassinatos e bombardeamentos, como os que por estes dias se abatem sobre a Faixa de Gaza.

Na mesma ocasião, a resistente Nisreen Lubbad contou como é a vida nos campos de refugiados – as carências materiais, a limitação de movimentos (com os checkpoints e as patrulhas), a vigilância permanente, a repressão constante: «Na Palestina ocupada, nenhuma mãe e nenhum pai pode garantir que cumpre a sua obrigação básica de proteger os seus filhos.» Várias vizinhas e amigas suas viram os seus morrer às mãos dos militares israelitas, cuja impunidade é chocante.

Numa sessão moderada por Carlos Araújo Sequeira, o investigador João Vasconcelos Costa denunciou a política de «dois pesos e duas medidas» do chamado Ocidente, lembrou o apoio do imperialismo norte-americano aos crimes de Israel e realçou que o crime de apartheid está previsto no direito internacional. O vice-presidente do MPPM, Carlos Almeida, insistiu no direito da Palestina a ter o seu próprio Estado – independente, soberano e viável – e de ser ouvida a voz do seu povo, pois até isso tem sido negado.

Também o CPPC evocou a data, numa nota em que lembra as sucessivas resoluções das Nações Unidas sobre o problema palestiniano, sempre ignoradas e desrespeitadas, e apela à elevação da luta pelos legítimos direitos nacionais do povo palestiniano, entre os quais se inclui o direito dos refugiados a regressar à sua terra.

A Juventude Comunista Portuguesa (JCP) lembrou a Nakba pintando um mural em Lisboa alusivo à resistência do povo palestiniano, cuja tenacidade e coragem garantirão, mais cedo ou mais tarde, a sua vitória.



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