Os direitos da juventude são bandeiras da luta que continua

Pedro Fernandes

A juventude é, desde há anos, um alvo privilegiado da ofensiva do grande capital, levada a cabo pelas forças políticas ao seu serviço: os baixos salários, a precariedade, a elitização do ensino e os ataques à escola pública, os crescentes obstáculos ao direito à habitação, à cultura e ao desporto, a falta de transportes públicos, são apenas alguns dos mais graves problemas que a afecta.

Mas nada disto é inevitável, como bem sabem os jovens comunistas, que todos os dias lutam com a juventude pela concretização das suas profundas aspirações.



A luta é mesmo a melhor solução para os problemas que os jovens enfrentam na escola, no trabalho, na vida

À conversa com o Avante! estiveram três jovens dirigentes da Juventude Comunista Portuguesa (JCP), que intervêm diariamente em sectores específicos, cujos problemas bem conhecem, assim como as potencialidades de organização e de luta: Gonçalo Francisco na juventude trabalhadora, Catarina Menor no Ensino Secundário e André Marques no Ensino Superior.

Avante!: Em cada um dos sectores que acompanham, que problemas enfrentam hoje os jovens portugueses?

Gonçalo Francisco: Os problemas com que se depara a juventude trabalhadora inserem-se no que marca a situação nacional: o aumento do custo de vida, as dificuldades que se vão somando a quem vive do seu trabalho e vê demasiado mês para o seu salário. Tudo aumenta menos o salário. Esta profunda injustiça de nos depararmos com estas dificuldades enquanto as grandes empresas e os grandes grupos económicos registam lucros extraordinários. Os problemas vão-se agravando e não encontram resposta por parte do Governo maioritário do PS.

Apesar disso, os jovens não se conformam perante as dificuldades. São muitos os locais de trabalho e empresas em que os jovens estão lado-a-lado com os seus colegas mais velhos, a lutar pelo aumento do salário, pela vinculação do seu contrato, pela redução do horário, por respeito pelo seu tempo para viver e desfrutar da vida.

Salários, precariedade e desregulação dos horários são três questões que estão entrelaçadas. A juventude trabalhadora encontra muitas vezes esta realidade como única opção que tem.

André Marques: O primeiro problema com que o jovem se depara quando chega ao Ensino Superior é a própria entrada. Ou seja, existe logo um conjunto de jovens que acaba por desistir do Ensino Superior. Só este ano, foram 11 mil os jovens que tiveram vaga preenchida e depois acabaram por não se matricular.

Para além disto, há um subfinanciamento crónico do Ensino Superior e uma Acção Social Escolar, directa e indirecta, com profundas insuficiências.

Enfrentamos ainda outros problemas. A existência e a efectivação do processo de Bolonha e as questões que derivam do Regime Jurídico da Instituições de Ensino Superior. Sobre o alojamento estudantil, a situação é bastante complicada. O número total de camas que existe a nível nacional em residências corresponde cada vez menos à quantidade de estudantes deslocados.

Catarina Menor: No Ensino Secundário, o problema mais gritante é a falta de condições materiais das escolas. Vemos que é o problema que mais mobiliza os estudantes para a luta: são as escolas onde o estudante quer praticar Educação Física e não tem um pavilhão para o fazer ou onde entra chuva na sua sala de aula. A falta de professores, de psicólogos, de funcionários, são outras questões. Cada vez ouvimos mais queixas sobre a sobrecarga horária e, depois, os entraves à democracia e à participação democrática dos estudantes. A ingerência nos processos eleitorais ou as Reuniões Gerais de Alunos que não são permitidas.

Depois, junto dos que ousam sonhar com o Ensino Superior, é-lhes colocada a realização de exames nacionais. Como é que um estudante que durante três anos se depara com todos estes entraves à sua aprendizagem pode fazer um exame que condiciona todo o seu percurso?

E como responde a juventude a todas estas dificuldades?

Catarina Menor: É mesmo a luta. Se olharmos apenas para este ano lectivo, conseguimos apontar que, perante toda esta conjuntura, os estudantes sabem que não pode ser assim! Sabem que é incomportável viver e estudar nestas condições e têm-se mobilizado para a luta.

Ainda no mês de Março, centenas e centenas de estudantes saíram à rua, por todo o País, por um Ensino Público que sabem que é seu e que é possível ter.

André Marques: A primeira questão que me vem à cabeça é o Dia Nacional do Estudante, 24 de Março, porque têm sido momentos de uma ampla mobilização em torno de problemas comuns. No entanto, não podemos descuidar que só existe essa luta, porque ao longo do ano se travam inúmeros processos de luta em torno de problemas concretos de cada faculdade. É uma dinâmica que se tem vindo a adensar.

Gonçalo Francisco: A situação nacional é mesmo marcada pela luta de massas, pelo desenvolvimento de grandes processos de luta. No caso dos trabalhadores, assistimos a grandes acções convergentes que juntam milhares de trabalhadores. A grandiosa manifestação da CGTP-IN de 18 de Março e o 28 de Março, Dia Nacional da Juventude, com a manifestação nacional da juventude trabalhadora, convocada pela Interjovem, são exemplos disso. Mostra que os jovens trabalhadores não se resignam, querem saber e lutam nos seus sindicatos para melhorar a sua vida.

Os jovens comunistas têm certamente um papel importante na dinamização destes processos todos de luta?

Catarina Menor: Logo à partida, os jovens comunistas identificam os problemas. Às vezes os estudantes e os jovens tendem a normalizar e a banalizar a situação em que vivem. Acho que os jovens comunistas têm um papel de agitador, de dizer onde está o problema e que o problema não tem de ficar ali para sempre e que há uma solução para o resolver.

André Marques: O papel do comunista em todas estas lutas é o de ser um elemento que, no caso do Ensino Superior, agite dentro das faculdades, que vá ao contacto com os estudantes, que procure conhecê-los e explicar-lhes o carácter estrutural que permite a existência desse problema. Neste sentido, o papel do comunista é construir a luta, não para os estudantes, mas em conjunto com eles. Acho que isso é um elemento essencial.

Gonçalo Francisco: A JCP vai desenvolvendo a sua actividade, juntamente com o Partido e assumindo o que é a sua característica de classe, de estímulo e apoio à organização e à luta dos trabalhadores.

Quando dizemos que estamos todos os dias com os jovens, com os estudantes, com os trabalhadores, não é exagero. Os jovens comunistas dão sentido à ideia de que a JCP é uma componente do movimento juvenil e agem com e no movimento associativo estudantil e juvenil. Todos os dias, em alguma parte do País, estamos em contacto com eles.

 

É preciso estar sempre junto dos jovens

O Secretário-geral afirmou no dia 6, na sessão de encerramento da Conferência Nacional do Ensino Superior e do Encontro Nacional do Ensino Secundário, que apesar do Partido ter muito a ensinar, também tem tudo a aprender com a JCP. Com a vossa experiência nos sectores que acompanham, que pode o Partido aprender com a JCP?

Gonçalo Francisco: No caso do mundo do trabalho, a primeira parte da afirmação do Secretário-geral é muito justa. Temos muito a aprender com o Partido. Em tudo o que é o mundo sindical e do trabalho, o Partido tem um património enorme que nos dá muita ajuda.

Acho também que a JCP dá o seu contributo com a sua capacidade de identificar onde estão os jovens trabalhadores e as suas reivindicações concretas. Problemas que não estão à parte dos outros, mas têm as suas próprias especificidades, formas concretas de se manifestarem junto dos jovens trabalhadores.

André Marques: Temos uma imensidão de coisas a aprender com o Partido. Seja na própria forma de nos organizarmos no plano das universidades, a forma de lutar, a forma como vamos ao contacto. É algo verdadeiramente essencial e existe pela forte ligação da JCP com o Partido.

A organização do Ensino Superior da JCP também consegue oferecer ao Partido, no plano do conhecimento, os elementos concretos da vida dos estudantes universitários. A JCP é hoje uma organização reconhecida e prestigiada no seio dos estudantes, mesmo num quadro de forte ofensiva ideológica. A este respeito, trazemos ao Partido o conhecimento de como esta ofensiva ideológica se materializa no mundo académico.

Catarina Menor: Acho que conseguimos dar muito ao Partido. Acho que a ousadia da luta, a maneira como enfrentamos um problema muito concreto e conseguimos sair da caixa e dos moldes. Lutar e agitar de uma maneira criativa e diferente dá muito resultado, o ser ousado na agitação, mobilização e organização das massas.

Quais são as próximas iniciativas, linhas de trabalho e metas que estão no horizonte?

Catarina Menor: Apesar de se valorizar todo o trabalho que foi feito na construção do ENES, tudo o que fizemos ao nível do reforço da organização, não olhamos para o ENES como um ponto de chegada, mas sim como um ponto de partida ou de continuidade.

A nossa organização volta-se agora para a questão dos exames nacionais, momento com o qual todos os estudantes do Ensino Secundário se confrontam e que os une e mobiliza.

Vamos continuar a estar nas escolas, em acções de contacto, em torno destas questões.

André Marques: No Ensino Superior, não descuramos linhas de trabalho que estavam em curso antes da CNES, mas penso que estamos numa fase de afirmar a JCP. No plano da luta, esta só avança com uma organização reforçada, com militantes responsabilizados, dentro das linhas de trabalho e inteirados do que está a ser desenvolvido. Estamos a aproximar camaradas e procurar envolvê-los no dia-a-dia da organização.

Gonçalo Francisco: O objectivo é o desenvolvimento da luta dos trabalhadores. Processo que vai avançando nos locais de trabalho e nas empresas. Procurar intensificá-lo para resolver problemas concretos ao local de trabalho, mas também para dar resposta às questões mais gerais. Nesse sentido, uma questão indissociável é o reforço da JCP. Quanto mais jovens trabalhadores comunistas houver nos locais de trabalho, mais agitadores e organizadores existirão.

Falamos também do reforço do movimento sindical unitário, a sindicalização dos trabalhadores e o reforço daquilo que é a estrutura juvenil da CGTP-IN, a Interjovem.


 

 



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