Relembrar Urbano Tavares Rodrigues (1923/2013)
Urbano Tavares Rodrigues é um dos maiores escritores contemporâneos portugueses
Neste Agosto quente, indecifrável, num país tragado pelo fogo e pela usura, cumprem-se nove anos do falecimento de Urbano Tavares Rodrigues e 70 anos da estreia literária de um dos nossos maiores escritores contemporâneos. Relembremo-lo, através da sua vasta e poliédrica obra.
Quando em 1952 João Gaspar Simões se referiu ao livro A Porta dos Limites, Urbano, então um jovem escritor a estrear-se, invadindo de pleno direito um espaço até então dominado pela inquestionável influência da prosa neorrealista, fê-lo detectando alguns dos premonitórios sinais que fariam o universo central das preocupações estéticas e sociais do autor de Os Insubmissos.
Embora a análise de Gaspar Simões a A Porta dos Limites denuncie alguma ligeireza analítica não descodificando os signos que a influência do existencialismo nela opera e os esboços narrativos herdados do nouveau roman, incapaz de apreender o modo novo de intervenção social que esse texto já anunciava, o crítico não deixou, contudo, de apontar nesse livro de estreia o relevo, a nitidez, com pormenor e força, que se inscreviam nos contos e nas novelas de Urbano Tavares Rodrigues: as figuras, os casos, as circunstâncias, as paisagens que a fina superfície do seu espelho interior recolheu.
Alguns dos pressupostos avançados por Gaspar Simões mantiveram-se ao longo da sua incontornável obra literária, com mais de 80 títulos publicados, entre ensaios literários e políticos, crítica de teatro, poesia, teatro e ficção, publicando neste último género mais de meia centena de títulos, constituindo-se, muitos deles, obras cimeiras da nossa literatura, da segunda metade do século XX e primeiros anos do século presente: Bastardos do Sol, Estrada de Morrer, Terra Ocupada, Violeta e a Noite, Os Cadernos Secretos do Prior do Crato, Ao Contrário das Ondas, Assim se Esvai a Vida. Noutra vertente da intervenção cultural e cívica de Urbano, salientamos: É Tempo de Começar a Falar de Álvaro Cunhal, O Mito de D. Juan, A Natureza do Acto Criador, 21 Dias de Luta e Viagem à União Soviética.
A escrita de Urbano sofreu, ao longo do seu longo percurso criador, um natural depuramento formal, capacidade expressiva, dinâmica lexical rara entre os seus contemporâneos, que são derivantes modelares do fascínio que o autor sempre manteve pelas palavras, arrebatamento que atravessa a sua escrita emprestando-lhe refinamento formal, em renovação permanente, impregnado de rarefação lírica transversal, de tocante sensualidade, imbuída desse poder onírico e orgástico que a sua mestria na utilização da fala enraíza, como acontece nos seus romances A Vaga de Calor e Filipa Nesse Dia.
Urbano escreve o corpo feminino, partindo deslumbrado como um adolescente à descoberta das suas mais secretas vibrações, com desenvoltura e sensibilidade. Raramente a exaltação do corpo feminino foi tão apaixonadamente assumida, tão sensitiva e transparente, como nos textos do autor de Nunca Diremos Quem Sois.
Se o seu livro de estreia já inscrevia os paradigmas de uma obra que se ampliaria e tornaria respeitada e influente, o seu último período criativo, que inclui títulos como Oceano Oblíquo, A Última Colina e esse dilacerante testemunho que é Nenhuma Vida, constituem-se síntese feliz dessa obra, consubstanciando os cambiantes matriciais que percorrem toda a sua ficção, ou seja, a critica social comprometida com o pulsar do seu tempo, entendendo a premência da solidariedade com as lutas de quantos se vêem acossados pelas complexas derivas que o habitam, que expressa o estupor com lúcida e corajosa mordacidade, textos que são parábolas de um tempo de cercos e de inquietudes, de medos, de incertezas. Urbano, impregna os seus textos de ténues sinais disseminadores de esperança, rompendo os cercos deste nosso conturbado mundo, não escamoteando a abordagem do real e a urgência de mudar o estado das coisas. Já Camus nos alertara para a impossibilidade da fuga ao real: a realidade e a luta são sempre mais poderosas do que os muros que supostamente protegem todos que dela se pretendam isolar.
A escrita de Urbano Tavares Rodrigues é espelho poliédrico que nos reflecte, espelhando as paisagens e as vivências que interiormente recolheu, de Paris a Florença, de Lisboa às planuras de afectos do Alentejo, até ao agreste Algarve da usura capitalista. Construtor exímio de um monumento de palavras, autor de extensa galeria de personagens fascinantes que inundam os imaginários que este grande contador de estórias nos legou, com azáfama de escriba sem cansaço, como por certo há 70 anos João Gaspar Simões, com algum faro terá suposto, demiurgo, que acontecesse.