Já os Galos Pretos Cantam, de José Viale Moutinho
Este livro divide-se em duas partes, umas das quais incide sobre a Guerra Civil de Espanha
José Viale Moutinho é um dos nossos mais ecléticos escritores contemporâneos. Ficcionista de amplas derivações imagísticas, inventor de histórias em que a realidade se cruza com o fantástico e o surreal, em contos perpassados pela inquietação social, a magia e o insólito (cabe referir aqui esse magnífico Monstruosidades do Tempo do Infortúnio, Prémio Camilo Castelo Branco), a linguagem assertiva e sagaz, envolvida em recortes líricos de exemplar colheita.
Poeta premiado (Prémio D. Diniz pela colectânea Os Cimentos da Noite), jornalista e investigador, condição que o levou a percorrer os caminhos galegos da Guerra Civil de Espanha, a revelar o horror, os crimes do franquismo, as feridas que, nos vastos territórios do pesadelo falangista, teimam em não cicatrizar, que permanecem no corpo social das espanhas, nas memórias que se inscrevem nos lugares em que a guerra e os crimes do franquismo foram mais hediondos: nas pedras, nas ruas, nas aldeias, nas histórias que se contam à lareira e passam oralmente de geração em geração, que invadem a literatura e, de modo singular, a escrita do autor de Cenas da Vida de Um Minotauro – para que se não esqueça.
Este novo livro, Já os Galos Negros Cantam, de Viale Moutinho, remete-nos para os anos da perfídia, para esses territórios dos monstros impossíveis de um Goya hodierno a desenhar o nosso tempo e seus temores, a bubónica, as clausuras da COVID-19, os silêncios que nos tolhem, os medos que tecem os dias do sufoco e da inquietação, o papel que a igreja, na sua vertente ortodoxa e reacionária, teve no conflito que dividiu os povos de Espanha, a cumplicidade com o franquismo, a denúncia que alguns párocos, nomeadamente nas pequenas comunidades, que conduziram ao fuzilamento de muitos republicanos e a crimes de ódio. Outros párocos houve que não traíram, que se colocaram ao lado do povo, com ele lutando em terras de Oviedo: «Pois foi, eles mataram depois o Lorenzo Méndez, que foi pároco em Tudela Verguin. Ele trabalhava com a gente do campo para ganhar a vida, tal como eles e os mineiros, e entendia que não devia levar nada pelos ofícios da igreja, e socorria como podia as famílias daqueles que faziam greve.» (p34)
No conto A Ilha de San Simón, é de frades e conventos franciscanos que o autor nos diz, com o trovador Mendinho trazido à liça: Cercaram-me as ondas que grandes são/não tenho barqueiro nem remador/eu atendendo o meu amigo1, a evocar o mosteiro de San Simón e o sangue derramado nessas lonjuras e tempos outros de frades, conquistadores sanguinários, violadores, ladrões, tempos de fugas e de cólera.
Também a Madeira, ilha natal do autor, anda por estas páginas na insólita história de um tal Telésforo Gouveia, homem de andanças pelo vasto mundo, reproduzindo na sua Quinta do Pinheiro Bravo quanto de fascinante conhecera em tais viagens: a pirâmide de Keops, uma escola com alunos de esferovite, um cemitério com lápides onde estivessem inscritos os nomes das pessoas mais importantes do mundo, e outros desvarios que só o dinheiro permite.
O Valle de los Caídos, esse monumento do franquismo que pretendia perpectuar a memória do horror, também atravessa estas histórias de magia e realidade, como refere Maria Isabel Morán Cabanas no prefácio, na figura patética do soldado Eloy: «Nessa altura, D. Esteban já integrava o Tribunal Especial para a Repressão da Maçonaria e do Comunismo, mantendo Eloy como secretário.» Pobre valdevinos, esse Eloy, traidor de classe, que nem sabia o que era a Maçonaria. A Espanha de Franco, onde apenas os tolos escapavam ao abate a tiro contra uma parede de cimento. De referir as epígrafes que abrem alguns dos textos, nas quais Camilo Castelo Branco se destaca.
Este novo livro de Viale Moutinho, dividido em dois, que se complementam: o Livro I, fala-nos da Guerra Civil e das suas atrocidades; o Livro II, trata de outras realidades não menos inquietantes, avisando-nos para estarmos atentos ao devir, dado que Já Os Galos Pretos Cantam, de novo.
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1 Versão de Natália Correia