Com que sonha o oprimido?

António Santos

Dizia Paulo Freire que quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser opressor. Não consta que Alberto Carvalho, superintendente do distrito escolar de Los Angeles, sonhe ou leia Paulo Freire, para infelicidade de meio milhão de crianças e 65 mil trabalhadores.

Conta o nosso conterrâneo Alberto Carvalho que, quando emigrou ilegalmente para os EUA, viveu nas ruas e passou fome, apesar de trabalhar na construção civil e na restauração. Trinta anos depois, cumpriu-se o sonho americano: o português já não vive na rua, é o patrão do segundo maior distrito escolar do país, é milionário e mantém 35 mil trabalhadores na miséria, a passar fome e a dormir nas ruas.

Não é exagero: um terço de todos os trabalhadores não docentes do Distrito Escolar Unificado de Los Angeles dormem em carros, tendas e albergues para sem-abrigo. O salário médio mensal destes trabalhadores é de 2000 dólares num distrito e que a renda média mensal de um apartamento é de 2700 dólares. Segundo a classificação da Casa Branca, o salário anual que auferem, pouco superior a 25 000 dólares, é «extremamente baixo».

Após um ano de negociações frustradas, em que Alberto Carvalho recusou intransigentemente escutar as reivindicações dos trabalhadores, representados pelo Service Employees International Union Local 99, o sindicato do sector, não sobrava outro caminho para além da greve. E não é uma greve qualquer: trata-se da maior paralisação nos EUA nos últimos quatro anos. No total são 65 mil os trabalhadores que começaram, esta terça-feira, uma greve de três dias: 35 000 trabalhadores não docentes das escolas de Los Angeles, a que, num gesto de solidariedade, se juntaram também 3000 professores.

Os grevistas exigem aumentos salariais de 30 por cento (Alberto Carvalho dizia que quatro por cento era o limite), dois dólares-hora extra durante os próximos quatro anos, acesso a cuidados de saúde para todos os funcionários e contratação de mais trabalhadores a tempo inteiro. Subitamente, na segunda-feira, o superintendente subiu a parada, prometendo aumentos salariais de 23 por cento. Mesmo assim, já não foi a tempo de evitar a greve: os trabalhadores não querem quatro nem 23, querem 30.

É que, entretanto, os auxiliares, cozinheiros, técnicos e trabalhadores das limpezas das escolas parecem ter descoberto Paulo Freire. Afinal, quando a educação é libertadora, o sonho do oprimido já não é sê-lo menos, é acabar com a opressão.




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