175 anos depois da sua primeira publicação

Validade e actualidade do Manifesto do Partido Comunista

Manuel Rodrigues

Na época que vi­vemos, o fu­turo não é do ca­pi­ta­lismo mas do so­ci­a­lismo e do co­mu­nismo

O Ma­ni­festo do par­tido Co­mu­nista foi ela­bo­rado por Karl Marx e Fri­e­drich En­gels como pro­grama da Liga dos Co­mu­nistas por de­cisão do seu II Con­gresso, re­a­li­zado em Lon­dres entre 29 de No­vembro e 8 de De­zembro de 1847, re­pre­sen­tando o triunfo dos de­fen­sores da nova linha pro­le­tária no quadro das dis­cus­sões ha­vidas no in­te­rior do mo­vi­mento. Ainda em Lon­dres e de­pois em Bru­xelas, K. Marx e F. En­gels tra­ba­lharam juntos na re­dacção do texto, que viria a ser pu­bli­cado na pri­meira da­quelas ci­dade, pela pri­meira vez, em Fe­ve­reiro de 1848.

Ao dotar a classe ope­rária de um pro­grama pró­prio, Marx e En­gels ter­mi­navam, assim, o pro­cesso de for­mação da pri­meira or­ga­ni­zação re­vo­lu­ci­o­nária in­ter­na­ci­o­na­lista do pro­le­ta­riado, acon­te­ci­mento de grande sig­ni­fi­cado, já que marca a vi­ragem de­ci­siva na his­tória do mo­vi­mento ope­rário e terá nele uma in­fluência sem pre­ce­dentes.

Com ele, pela pri­meira vez se pro­clama a ta­refa re­vo­lu­ci­o­nária da classe ope­rária: pôr fim ao modo de pro­dução ca­pi­ta­lista, acabar com a ex­plo­ração do homem pelo homem, cons­ti­tuir uma so­ci­e­dade sem classes.

O Ma­ni­festo do Par­tido Co­mu­nista veio, assim, for­necer aos pro­le­tá­rios or­ga­ni­zados em «par­tido po­lí­tico» uma te­oria de van­guarda, fa­zendo fundir o so­ci­a­lismo ci­en­tí­fico com o mo­vi­mento ope­rário, con­fe­rindo-lhe um ca­rácter ver­da­dei­ra­mente re­vo­lu­ci­o­nário. Fusão ne­ces­sária que Lé­nine ex­pri­mirá, já no co­meço do sé­culo XX, na cé­lebre frase da sua obra Que Fazer?: «sem te­oria re­vo­lu­ci­o­nária não pode haver mo­vi­mento re­vo­lu­ci­o­nário.»

Aquando da co­me­mo­ração do seu 150.º ani­ver­sário, Álvaro Cu­nhal, numa con­fe­rência pro­fe­rida na Fa­cul­dade de Di­reito da Uni­ver­si­dade de Coimbra, no dia 6 de Maio de 1998, as­si­na­lava que «o Ma­ni­festo do Par­tido Co­mu­nista (...) mantém hoje va­li­dade e ac­tu­a­li­dade», se não for en­ca­rado «como tes­te­munho de um pen­sa­mento da­tado, pa­rado, fixo, cor­res­pon­dendo a uma si­tu­ação que agora se con­si­dere to­tal­mente ul­tra­pas­sada».

E: «com ac­tu­a­li­za­ções, de­sen­vol­vi­mentos e apli­ca­ções di­ver­si­fi­cados, em vir­tude da di­ver­si­dade das con­di­ções con­cretas, da di­ver­si­dade da ex­pe­ri­ência e da prá­tica, da re­flexão e da cri­a­ti­vi­dade teó­rica das forças re­vo­lu­ci­o­ná­rias, os seus prin­cí­pios fun­da­men­tais con­ti­nuam vá­lidos e ac­tuais.

«Vá­lido e ac­tual o ma­te­ri­a­lismo di­a­léc­tico, que re­jeita ver­dades ab­so­lutas e eternas e ex­pli­ca­ções so­bre­na­tu­rais, e confia no co­nhe­ci­mento ci­en­tí­fico.

«Vá­lido e ac­tual o ma­te­ri­a­lismo his­tó­rico, con­si­de­rando o modo de pro­dução como de­ter­mi­nante “em úl­tima aná­lise” da vida so­cial e das su­pe­res­tru­turas ide­o­ló­gicas, o do­mínio de classe como ele­mento dos go­vernos e Es­tados e a luta de classes como força mo­triz das trans­for­ma­ções e mu­danças da so­ci­e­dade.

«Vá­lido e ac­tual, re­fe­rente ao ca­pi­ta­lismo, a te­oria eco­nó­mica de Marx, da qual a te­oria da mais-valia é a “pedra an­gular”.

«Vá­lida e ac­tual a tese de que o ca­pi­ta­lismo está roído por in­sa­ná­veis con­tra­di­ções, que, na ac­tual época his­tó­rica, con­du­zirão à sua su­pe­ração por uma so­ci­e­dade nova, li­ber­tada da ex­plo­ração e da opressão do homem pelo homem, das grandes de­si­gual­dades, in­jus­tiças e fla­gelos so­ciais, as­se­gu­rando o me­lho­ra­mento ra­dical das con­di­ções de vida dos povos no quadro da li­ber­dade e da de­mo­cracia di­recta, par­ti­ci­pa­tiva e re­pre­sen­ta­tiva e no res­peito pela in­de­pen­dência de Es­tados e na­ções.

«A vida não des­mente antes com­prova a pers­pec­tiva apon­tada pelo Ma­ni­festo Co­mu­nista. Que na época que vi­vemos, o fu­turo não é do ca­pi­ta­lismo, mas do so­ci­a­lismo e do co­mu­nismo. Não se­gundo qual­quer “mo­delo”, mas com ob­jec­tivos re­de­fi­nidos se­gundo as ex­pe­ri­ên­cias e as li­ções de 150 anos de his­tória».

Pas­sados 175 anos, o Ma­ni­festo do Par­tido Co­mu­nista con­tinua, de facto, vá­lido e ac­tual. Enfim, uma lei­tura im­pres­cin­dível a quem se pro­ponha in­ter­pretar e trans­formar o mundo.




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