Comentário social e político em Cinema Paraíso de Tornatore

Cinema Paraíso celebra o cinema, o dispositivo que o torna possível e a audiência

Cinema Paraíso é um drama sentimental cuja história se centra no percurso de vida de um homem e, em particular, nos episódios que marcaram a sua infância e adolescência vivida na Itália do pós Segunda Guerra Mundial. É em função deste fio narrativo principal que o filme é habitualmente evocado e celebrado, sendo frequentemente apontado pelo público como significativo face à experiência emocional que é capaz de suscitar. É, no entanto, possível evidenciar outros aspectos aí tratados. Este é, indubitavelmente, um filme dedicado ao cinema. Não apenas aos filmes – embora vários assumam aí grande protagonismo –, mas, de modo fundamental, ao dispositivo cinematográfico que esteve dominantemente presente durante o século XX.

De entre os elementos que constituem o dispositivo, destaca-se o projector, já que é manifesto o poder encantatório atribuído ao feixe de luz que percorre a sala até repousar no ecrã. Não é possível dissociá-lo de um outro igualmente relevante, que consiste na experiência comunal da audiência. Com os filmes e com aqueles com quem se assiste à sua apresentação, as personagens crescem, aprendem, criam relações, expressam as suas ansiedades e desejos. Naquela sala de cinema era assim e foi-o em muitas outras pelo mundo, em várias gerações. Nos filmes e na dinâmica de relacionamento das figuras frequentes de Paraíso, estão também representados, os traços societais, geográficos e epocais do contexto narrado.

O filme propõe a celebração do cinema, mas de uma modalidade de cinema em larga medida extinta, ou, mais consensualmente, convertida em algo distinto. É por isso que o relato é elaborado de modo nostálgico, apresentando-se como algo que existe apenas na memória de um passado longínquo e operando como elegia fúnebre.

Trata-se, pois, de um filme que possibilita o reconhecimento de um conjunto de obras fílmicas importantes da história do cinema, assim como a compreensão de uma forma específica de experiência e relacionamento com o dispositivo cinematográfico que foi contemporaneamente substituída por outras.

Em um segmento, numa atitude rara ao longo do filme, Tornatore afasta-se do relato de registo terno e nostálgico, para dar lugar a uma preocupação de exposição ou denúncia de pendor realista. É quase meia-noite e a última sessão de Paraíso está prestes a terminar. Nesse dia, exibe-se A Terra Treme. Enquadrado pelo filme de Visconti, que reflecte sobre a luta de classes e se insurge contra a dominação e exploração social, surge esta visão da praça principal de Giancaldo vista em plano geral, ligeiramente picado. Este tipo de enquadramento inusitado face ao restante filme – o autor privilegia os planos próximos, detalhistas – sinaliza uma pausa na intriga principal para dar lugar ao comentário político. Na rua, um grande grupo de homens esquálidos e desalinhados, aguarda, conformado, a chegada de Don Vincenzo, dignitário de Giancaldo. O local funciona como uma praça de jorna. O patrão aponta dois trabalhadores que se apressam a seguir as suas orientações. No centro do quadro, está Ciro, o homem que a aldeia identifica como comunista. Este interpela Don Vincenzo, sendo o único com coragem para se lhe dirigir, e pede trabalho, pretensão que lhe é imediatamente negada. O espectador não se envolve, assiste de fora a este quadro sobre o quotidiano da pequena aldeia, tal como os guardiões do cinema que permanecem no seu interior. A luz que irradia da sala, sinaliza a entrada num portal de fantasia e maravilhamento que contrasta com a vida real. Cá fora, Ciro, o homem que confronta o opressor, é o único que o olha de frente e mantém uma postura hirta na sua presença.

Este plano geral, completamente estranho ao tom dominante do filme, oferece espaço para o pensamento sobre um problema social relevante associado não apenas à época histórica retratada, mas também à contemporaneidade.




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