A música da casa
Trio em Mi Bemol baseia-se na peça teatral de Éric Rohmer
Um casal divorciado, Adélia (Rita Durão) e Paul (Pierre Léon), reencontra-se. Certo dia, ela bate-lhe à porta e ele abre. Vão encontrar-se uma vez em cada estação do ano para conversar sem pressas. O Trio em Mi Bemol (2022), estreado no Festival de Cinema de Berlim e agora exibido em Portugal, baseia-se na única e homónima peça de teatro escrita pelo cineasta Éric Rohmer, figura central da Nova Vaga Francesa.
O traço definidor do filme talvez seja a sua depuração, uma simplicidade densa que combina vários elementos e diversas referências. O cinema de Rita Azevedo Gomes é eclético, integrando um percurso artístico que atravessa as artes plásticas e gráficas, a ópera, o teatro, a literatura, e a música. O trabalho da artista na direcção artística e no guarda-roupa explica o cuidado cenográfico patente nos seus filmes como realizadora, desde a sua primeira longa-metragem O Som da Terra a Tremer (1990) até obras mais recentes como A Vingança de Uma Mulher (2012) e A Portuguesa (2019).
O Trio em Mi Bemol é basicamente um filme de câmara, isto é, uma obra que decorre quase sempre num único espaço feito cenário. Trata-se da casa de Alexandre Alves Costa, em Moledo do Minho, desenhada por Álvaro Siza Vieira. O espaço arquitectónico permite mapear as emoções das personagens, com as suas dobras e rectas, transparências e opacidades, e contiguidades e separações. É mais um exemplo do modo como este cinema se alimenta de outras manifestações estéticas e artísticas para ganhar corpo e unidade.
A palavra tem sido um elemento fundamental nos filmes de Azevedo Gomes, como demonstra Correspondências (2016), baseado nas cartas escritas entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena. Em O Trio em Mi Bemol fala-se francês, castelhano, e português, mas o essencial é a palavra como expressão do (des)acordo e da (des)atenção. Ao casal afastado que se reaproxima, o argumento escrito pela realizadora acrescentou duas personagens: um realizador, Jorge (Ado Arrieta), e uma assistente (Olivia Cábez), de um filme dentro do filme baseado na peça. Esta opção não acrescenta apenas mais uma camada narrativa, muda também a caracterização das duas personagens principais, que passam também a ser uma actriz e um actor.
Sem retirar força ao texto de Rohmer, O Trio em Mi Bemol cria espaços de distanciamento sobre a natureza performativa da vida e os significados dos gestos e das palavras nas relações interpessoais. O filme começa, precisamente, com uma cena repetida com uma posição da câmara tão diferente como as interpretações de Rita e Pierre. Essa diferença mostra a importância da encenação cinematográfica, pesando a proximidade e o afastamento das personagens, a (in)comunicabilidade entre elas e a sua interacção com a casa e os objectos. Neste sentido, este é um exímio exercício de mise-en-scène.
Um aforismo atribuído a Rohmer pode servir de guia na apreciação desta obra: «O cinema está mais próximo da música do que da pintura, porque não é feito de imagens, mas de planos, onde o tempo flui por dentro como na música.» Como se diz e se ouve no filme, a música age sobre os corpos das pessoas e talvez as aproxime ou as afaste. A questão do ecletismo musical é discutida em muitos momentos — gostar de rock impede que se aprecie a música de Johann Sebastian Bach? — porque o carácter diverso dos elementos que se juntam em união é um dos temas da peça e do filme.
Em sintonia com estas inquietações temáticas, o título provém de uma composição musical, «Trio em Mi Bemol», composta por Wolfgang Amadeus Mozart para um conjunto de três instrumentos: viola, clarinete, e piano. Nesta música e neste filme, os instrumentos e as vozes harmonizam-se numa relação amorosa, delicada e intrincada, com a maturação do tempo.