Jorge Vieira, um artista solar
Jorge Vieira era um homem socialmente empenhado, um artista inquieto, atento, acutilante
Este ano comemora-se o centenário de Jorge Vieira, cem anos que se cumpririam no dia 16 de Novembro. Na história das artes visuais em Portugal Jorge Vieira é o pioneiro da arte moderna na escultura, o mais marcante escultor do séc. XX. Afirmações tão definitivas são sempre questionáveis se não fossem uma das incontornáveis certezas da arte contemporânea portuguesa.
Embora prémio de escultura na I e II Exposições de Artes Plásticas organizada pela Fundação Gulbenkian, a iniciar uma acção marcante nas artes em Portugal, Jorge Vieira não obtém bolsa da Fundação, vai para Slade School de Londres a expensas próprias, durante um ano, trabalhar com Henry Moore e Reg Butler. Em 1953 participa e é um dos premiados, entre cento e quarenta concorrentes seleccionados entre os mais de 2500 que concorreram no concurso internacional para o Monumento ao Prisioneiro Político Desconhecido. Registe-se que vinte e quatro artistas portugueses, alguns de reconhecida celebridade, foram recusados.
Apesar desse êxito, durante muitos anos Jorge Vieira não foi nem respeitado nem encorajado em Portugal como deveria, uma distância entre o artista e a sua pátria em que está bem acompanhado, mas que no seu caso era mais profunda por ser homem de intransigente verticalidade, que não pactuava com a ausência de liberdade, por ela lutava das mais diversas formas com um empenhamento político que lhe valeu ser afastado do ensino e de outras instituições do Estado, não pactuava com a mediocridade, nunca deu um passo nos caminhos mais ou menos oblíquos da auto-promoção distanciando-se, até por vezes com acinte para não dar margem a qualquer dúvida, da critica de arte, dos fazedores de modas, dos mentores do mercado.
Um homem dessa têmpera só podia ser como era: um homem socialmente empenhado, um artista inquieto, atento, acutilante. Mas a isto, que por si só já é raro, Jorge Vieira acrescentava a centelha de um génio com a vibração metálica do sol, uma força telúrica, uma ironia feroz que estilhaçava o senso comum, um olhar olímpico que radio-fotografava o universo, as especiarias com que traçou um percurso ímpar.
O seu percurso, a sua obra escultórica é rara e singular. O seu real imaginário atravessa o surrealismo, o abstracionismo, o realismo e os primitivos da África Negra, dos Caldeus, dos Hititas, das Ciclades, em que se isso tudo é reconhecível, tudo isso desconstrói com uma liberdade de tal modo livre na criação das formas que a sua obra é inigualável e inclassificável. Da terracota ao ferro, das pequenas peças às de grande dimensão, como o Homem-Sol no Parque das Nações e outras em Beja, Grândola e Almada, para referir as mais conhecidas, é um imenso Olimpo de figurações, mesmo as mais abstratizantes, que celebram a vida no que ela tem de mais eterno: a ritualidade pagã da alegria de viver, o celebrar a terra na sua contínua transformação, a liberdade no que tem de mais absoluto, o mais vibrante e delicado erotismo.
Essa recolha, esse cruzar de conhecimentos é transmitido pelas suas mãos inteligentes que conheciam os segredos mais íntimos dos materiais e eram movidas por uma criatividade e uma imaginação que corriam como um rio sem margens.
A representação tridimensional do corpo, tema central na obra de Jorge Vieira, tanto de corpos humanos, com destaque para a mulher, como zoológicos, com destaque para o touro, adquirem sempre novas anatomias, equilíbrios e dinâmicas extraordinárias. São pequenos e grandes deuses feitos por um homem-artista humano, demasiado humano, que tempestuava o quotidiano com a sua esfuziante criatividade, sempre inovador, sempre atento, sempre inigualável, que esteve sempre com o seu tempo a questionar intransigentemente o seu tempo artística, social e politicamente, abrindo as fronteiras do futuro.
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Assinalando o centenário de Jorge Vieira, em Beja, no Centro de Arqueologia e Artes, uma exposição sobre O Touro na Obra de Jorge Vieira estará patente até Março. Aproveitar para visitar o Museu Jorge Vieira instalado na antiga casa do Governador, no Castelo de Beja.