O medo devora a alma, de Rainer Werner Fassbinder

Domingos Lobo

O texto de Fassbinder coloca o espectador perante as grandes questões sociais e políticas do nosso tempo

A Companhia de Teatro de Almada, dirigida por Rodrigo Francisco, continua a surpreender-nos, não apenas com o acerto das suas produções, mas, no substantivo da função, ao encenar textos como este de Rainer Werner Fassbinder, que coloca o espectador perante as grandes questões sociais e políticas que definem, e inquinam, o nosso tempo.

Fassbinder foi um dos mais influentes realizadores e encenadores alemães do pós-guerra e um dos autores – como Heinrich Böll, Günter Grass ou Heiner Müller –, que nos seus textos reflecte e estabelece dialecticamente os traumas, o conservadorismo, o racismo, os complexos da sociedade da República Federal Alemã dos anos 1960/70, e nos dá a ver o lado obscuro e sórdido do milagre económico de um país derrotado e a erguer-se das cinzas, graças ao trabalho de milhares de emigrantes oriundos do sul da Europa (portugueses, espanhóis, italianos), e de países como Marrocos e Turquia.

O medo devora a alma, parte do guião do filme homónimo, realizado por Fassbinder em 1974, traduzido por António Sousa Ribeiro para a presente versão teatral, encenada com o rigor e virtuosismo desse mestre do nosso teatro contemporâneo que é Rogério de Carvalho, partindo de uma história de amor entre Emmi, uma sexagenária alemã, viúva, empregada de limpezas e Ali, um trabalhador emigrado de origem marroquina, vinte e cinco anos mais novo.

Emmi e Ali casam e arrastam nesse acto corajoso todos os clamores, ódios e frustrações de uma sociedade profundamente doente, ainda ferida no seu orgulho de raça superior, herdado do seu funesto e trágico passado. São ainda os restos dos discursos do ódio, das obsoletas sombras que persistem num país a tentar libertar-se dos espectros que o limitam, que irão construir o cerco em torno dos amantes. Mais do que a estranheza da diferença de idades entre os amantes, é o ódio em relação ao Outro, o estranho, o estrangeiro, esse lixo que, embora útil, está a invadir de novo o espaço limpo de uma Alemanha a erguer-se do seu atoleiro histórico. Para os alemães, os marroquinos são cães, dirá Ali. Temos de ser bons, dirá por sua vez Emmi, se não a vida não vale nada.

Não é o discurso entre o bem e o mal que Fassbinder encena neste texto carregado de sinais perturbadores sobre o tempo dos monstros é, sobretudo, uma parábola assertiva e cínica sobre o modo como os outros nos olham, invadem a nossa intimidade e nos tentam controlar e submeter; confinar em novos guetos o nosso direito à liberdade e as escolhas que fazemos, mesmos quando essas declinações são geradas pelo ódio ao que é diferente, ao que pensa e age de modo diverso, às suas crenças, hábitos e cultura. Essa gente suja, dirá uma personagem, Ali, toma banho todos os dias, contraporá Emmi.

Afinal o preconceito existe, gerando a irracionalidade que conduz ao ódio - e essa é uma visão perturbadora de uma realidade contaminada por interesses exteriores ao proletariado, que José Saramago também desenvolve em alguns dos seus romances -, no seio da mesma classe social: as mulheres da limpeza, os funcionários públicos, os pequenos comerciantes, a mão-de-obra barata e sem direitos e o sub-mundo de proxenetas e prostitutas, tão caro a Fassbinder, que ele transporta para este soberbo, violento e eficaz texto.

Cláudio da Silva, esse enorme actor que vimos este ano, neste mesmo teatro, interpretar Hipólito, tem neste Ali contido, de alma ferida pelo receio de existir num mundo hostil, devorado pela úlcera que o há-de matar quando deixar de servir, mais uma interpretação feliz; Teresa Gafeira faz uma Emmi que quer viver, e o resto que se lixe, ora jubilosa e angustiada, ora felina e amarga, ora de uma tocante e lúcida serenidade, desenvolvendo com precisão e talento esta complexa personagem de Fassbinder, que foi exímio criador de papéis para grandes actrizes. São José Correia, em Barbara, é uma convincente e desencantada prostituta. Catarina Campos Costa, David Pereira Bastos, Júlio Mesquita, Laura Barbeiro, Lavínia Moreira, Maria Frade, Miguel Eloy e Pedro Fiuza, completam o competente elenco que ergueu, sob a superior orientação de Rogério de Carvalho, espectáculo. O cenário sóbrio e eficaz é, uma vez mais, de José Manuel Castanheira e as luzes de Guilherme Frazão.

Se nesta peça de Rainer Werner Fassbinder, o paraíso ainda não está à vista, ele é, pelo menos, posto em causa e as suas maleitas expostas a nu nesta distópica análise do nosso tempo. A utopia possível talvez resida no modo como enfrentarmos os desafios que esta peça nos propõe.

Em cena de 28 de Outubro a 27 de Novembro, na Sala Experimental do Teatro Municipal Joaquim Benite.




Mais artigos de: Argumentos

Dia Mundial da Ciência para a Paz e o Desenvolvimento

Sob proclamação da UNESCO, desde 2002 que se celebra a 10 de novembro o Dia Mundial da Ciência para a Paz e o Desenvolvimento. A lógica de celebrar este dia «tem as suas raízes na importância do papel da ciência e dos cientistas para as sociedades sustentáveis e na necessidade de informar e...