Curtas notas sobre um Programa de Trabalho
A Comissão Europeia (CE) apresentou o seu Programa de Trabalho para 2023. Houve pompa e circuntância mas, na verdade, não há nada para aplaudir. Mais proclamações sobre «solidariedade» que se reflecte, por um lado, no envio para a Ucrânia de mais e mais sofisticado apoio militar que, desde Fevereiro até Setembro, ultrapassa 3,1 mil milhões de euros ao abrigo do Mecanismo Europeu de Apoio à Paz – e não fosse esta a denominação do mecanismo e a palavra «paz» não seria encontrada neste plano de trabalhos. Fica, pois, claro que se prefere o militarismo à diplomacia!
Por outro lado, insiste-se na aplicação de sanções à Rússia – sanções de que alguns beneficiam e muito, amealhando lucros chorudos, mas cuja pesada factura está a ser passada aos povos da Europa (e do resto do mundo), que sentem o seu efeito perverso a cada dia que passa! Oito meses passados e outros tantos pacotes de sanções e o seu efeito no apaziguamento da situação é nulo!
Sem surpresas, não se ouviu uma palavra sobre os trabalhadores e a degradação das suas condições de vida nem sobre o necessário e urgente aumento dos salários e das pensões para que possam fazer face à espiral inflacionária alimentada pela especulação com o preço da energia e de bens essenciais (que não querem combater).
As «medidas de emergência de intervenção no mercado da energia» mantêm-se parcas e insuficientes, reduzidas às contribuiçõezinhas (temporárias) pelos lucros «excessivos» das multinacionais do sector energético. O chamado Pacto Ecológico Europeu e a denominada transição digital também são para continuar, pelo menos no plano das intenções – embora o caminho de submissão aos interesses dos Estados Unidos da América que a União Europeia (UE) se auto-impôs e o declínio económico que comporta, e que é já evidente, necessariamente matizem as suas ambições.
No plano internacional, foi anunciada uma nova Agenda para a América Latina e as Caraíbas. Este interesse repentino por aqueles povos não há de estar desligado da importância geoestratégica que eles podem assumir frente ao domínio hegemónico do imperialismo norte-americano, até tendo em conta a ascensão de forças de esquerda e progressistas em diversos países (Chile, Colômbia, Honduras e aguardemos o que acontecerá no próximo domingo no Brasil). As relações entre a UE e os países da América Latina e do resto do mundo nunca se pautaram nem pautarão pela cooperação, pelo respeito mútuo nem pela defesa da soberania. Mas que o alto representante e porta-voz da UE, Josep Borrell, o tenha assumido, há uns dias, referindo-se à Europa como um «jardim» e ao resto do mundo como uma «selva», clarifica bem a atitude eurocêntrica e supremacista com que a UE olha e se relaciona com os outros povos. É todo um programa de trabalho!