Percurso e obra de José Saramago inspiram oprimidos de todo o mundo

O 24.º aniversário da entrega do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, o escritor que amou e foi amado pelo seu povo, foi o tema da sessão evocativa que se realizou, dia 8, no Centro de Trabalho Vitória, em Lisboa.

«Saramago foi um escritor que veio do povo trabalhador, a quem amou e foi fiel»

A obra de José Saramago, pela sua inegável e reconhecida qualidade como pelos valores que transporta, é intemporal. Talvez por isso o salão do Centro de Trabalho Vitória, em Lisboa, se tenha enchido de militantes, amigos e admiradores de diferentes idades: dos que guardam vivas memórias da atribuição do Prémio Nobel ao escritor, a 8 de Outubro de 1998, como dos que, nascidos depois desse marcante acontecimento, não deixam de reconhecer uma flagrante actualidade nas palavras do autor.

Isso mesmo atestou também o vídeo com que se iniciou a sessão evocativa de sábado passado, dirigida por Ricardo Costa, da Comissão Política. O filme, de cerca de 15 minutos, recorda momentos marcantes da vida do escritor e militante comunista, como a cerimónia de entrega do mais alto galardão mundial da literatura ou a sessão com que foi, já em Portugal, recebido e saudado pelos seus camaradas. Incluía também declamações de excertos de obras suas na voz de Fernanda Lapa, Maria do Céu Guerra e Carmen Santos.

Em seguida, Luísa Amaro e Mafalda Lemos, duas gerações diferentes de guitarristas, deram vida à guitarra portuguesa, destacando personalidades – como Carlos Paredes e o próprio José Samarago – que se entregaram à cultura e ao seu papel na luta de classes e na construção de um mundo diferente. E melhor: «Há aqui solidariedade e uma postura de honestidade que só se encontra no PCP. Creio que é isso que, nos dias de hoje, tentam vergar. São formas muito subtis de tentar destruir a nossa unidade que é única, rara e insubstituível», salientou Luísa Amado, que afirmou ter aceitado o convite para ali estar com «grande sentido de honra e felicidade».

 

Legado ímpar

Coube ao Secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, o encerramento da sessão evocativa que procurou homenagear, uma vez mais, o «escritor universal, intelectual de Abril e militante comunista» que foi José Saramago, por ocasião da atribuição do Prémio Nobel (ver caixa).

«Autor de vasta e diversificada obra literária, traduzida em muitas línguas, espalhada, lida e reconhecida pelo mundo inteiro, faz de José Saramago, escritor de referência e eco mundial, inteiramente merecedor do Prémio Nobel da Literatura, pela primeira vez atribuído a um escritor de língua portuguesa», salientou o dirigente comunista na sessão integrada nas comemorações do centenário do nascimento de José Saramago, para o qual, referiu, o PCP avançou «com programa próprio e por todo o País».

A atribuição do Prémio Nobel a José Saramago, destacou ainda Jerónimo de Sousa, significou igualmente um contributo para a afirmação da literatura de língua portuguesa no mundo, para o reconhecimento do português como língua de referência importante na cultura mundial. «Um prémio que transformou José Saramago num embaixador da cultura da nossa língua, que as projectou nos mais diversos cantos do mundo», salientou.

Mas não foi só a sua obra literária a merecer destaque. Também o percurso de vida exemplar do escritor e «a sua opção pela luta transformadora ao serviço da emancipação social dos trabalhadores e do povo» foram ali sublinhados.

 

Escrita transformadora

«Saramago, pelo novo que a sua escrita transporta, pelos conteúdos que habilmente criticam e questionam o estado do mundo e as grandes questões da humanidade, não é um autor particularmente acarinhado pelo conservadorismo dos poderes instalados», afirmou o Secretário-geral, recordando episódios que procuraram limitar a divulgação do escritor, como o de Sousa Lara, enquanto subsecretário de Estado da Cultura, ou o da Câmara Municipal de Mafra que, em 1998, vetou a atribuição da Medalha de Honra do Concelho ao escritor, proposta pela CDU.

«Nesta celebração evocamos o homem que desde muito jovem tomou lugar na luta pela libertação do seu povo e contra o fascismo», recordou Jerónimo de Sousa, referindo as preocupantes evoluções políticas que se têm observado no mundo. «Uma preocupante evolução que tem causas diferentes em diferentes espaços, mas tem como pano de fundo a aguda crise estrutural do capitalismo e a expressão do aprofundamento do seu carácter explorador, opressor, agressivo e predador e que é responsável pela situação de instabilidade e incerteza no plano mundial», afirmou.

«Uma política que, servindo os senhores do dinheiro e do mundo, despreza o homem e os seus direitos e degrada a democracia, como dizia José Saramago no discurso de agradecimento do Nobel em Estocolmo: “chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante. (…) Aqueles que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal de democracia», relembrou.

 

Escritor do povo

«Esse homem que, amando o povo, amou Abril, com tudo o que comportou de sonho, de transformação e de avanço progressista», é, para o PCP, um homem que jamais deixará de ser celebrado, «não apenas como escritor maior da língua portuguesa, mas também como homem comprometido com os explorados, injustiçados e humilhados da terra, que assumiu valores éticos e um ideal político do qual não abdicou até ao fim da sua vida», garantiu ainda Jerónimo de Sousa.

 

A casa certa para celebrar o nosso Nobel

Esta não foi a primeira vez que o PCP celebrou no salão do Centro de Trabalho Vitória, em Lisboa, a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago.

Logo a 14 de Outubro de 1998, dias após ter sido conhecida a decisão da Academia sueca, o escritor comunista foi ali recebido com «muita emoção e cravos vermelhos», num «ambiente de grande alegria e entusiasmo» – contava o Avante!. Dirigindo-se aos seus camaradas e amigos, que lotavam o salão, José Saramago afirmou que «eu hoje, com o prémio, posso dizer que para ganhar o prémio não precisei de deixar de ser comunista». Na mesma ocasião, o Secretário-geral do PCP, Carlos Carvalhas, considerou aquele galardão como «um impulso e um estímulo para a nossa luta, para a luta universal de todos os explorados e oprimidos».

Uma década mais tarde, precisamente a 8 de Outubro de 2008 (cumpria-se então o 10.º aniversário da atribuição do Prémio Nobel), voltou-se ao salão do CT Vitória para celebrar o Prémio Nobel de José Saramago. Presentes, entre outros, o próprio escritor, o fadista Carlos do Carmo (que ali cantou uma canção a partir de um poema do homenageado) e o Secretário-geral do Partido, Jerónimo de Sousa. Foi este a recordar que «desse dia e dos que lhe seguiram, guardamos na memória o sentimento de profunda emoção que tal acontecimento trouxe aos portugueses». Para o dirigente do Partido, a obra do escritor, «tivesse ou não sido o galardoado com o Prémio Nobel, «constituiria sempre um dos grandes marcos da literatura mundial».

Em 2018, já após o falecimento de José Saramago, foi também o CT Vitória a acolher a evocação dos 20 anos do Nobel. Depois de Paula Oliveira e Daniel Schwetz terem interpretado seis das Canções Possíveis, disco com versos retirados do livro Os Poemas Possíveis, Jerónimo de Sousa lembrou que José Saramago «não precisou de se esconder, nem se quis esconder», com a sua obra a revelar o seu «sensível e humano olhar sobre os problemas do homem e da Humanidade e o seu destino». Sem a sua condição de comunista, a «massa humana de muitos dos seus livros não se moveria com o mesmo fulgor».

 

Conferência em Lisboa a 22 de Outubro

No âmbito das comemorações do Centenário de José Saramago, «escritor universal, intelectual de Abril, militante comunista», que o PCP vem promovendo, realiza-se, entre as 10h30 e as 17h30 do dia 22 de Outubro, no auditório da Escola Secundária Camões, em Lisboa, a Conferência Uma visão universal e progressista da história – a actualidade da obra de José Saramago.

Trata-se de um importante momento do programa das comemorações do Centenário de José Saramago, um dos mais destacados intelectuais portugueses, visando contribuir para a divulgação da sua obra e a sua actualidade.

A Conferência contará com a participação do Secretário-geral do PCP.