Que desporto temos? Que desporto queremos?
Portugal permanece na cauda da Europa quanto aos índices de prática desportiva
Estava congeminando o tema do presente artigo sobre o problema dos custos para o País da situação em que se encontra a falta da actividade motora das crianças nas escolas do 1.º Ciclo do Ensino Básico (CEB) quando a camarada Isabel Cruz me enviou os dados fornecidos pelo último Eurobarómetro Especial (Setembro 2022) sobre a actividade física e o desporto na UE. Trata-se de um documento periodicamente emitido sobre este assunto, que pretende mostrar a sua evolução ao longo do tempo entre os países que a compõem.
Cá pelo burgo causa sempre um certo reboliço, porque mostra que Portugal alinha imparavelmente entre o grupo dos piores, sendo que já ocupou o último lugar, e agora continua a andar por lá perto. Dizem, entre outras coisas pejorativas para o documento, que a população portuguesa não compreende devidamente o sentido das perguntas que lhe fazem! Todavia, num estranho processo de manipulação dos dados fornecidos por estes documentos, são retiradas conclusões e referências, por vezes completamente opostas, de acordo com os interesses próprios dos autores.
Não parece possível por em causa a validade do referido documento, pelo que sempre temos utilizado os seus dados como demonstrativos da nossa realidade. Saindo há semanas atrás o último número, resolvemos que seria útil dá-lo a conhecer quanto antes, pois ele demonstra plenamente a razão de ser das preocupações que aqui se têm manifestado.
Tomam-se aqui exclusivamente os dados fornecidos pelos Eurobarómetros Especiais de 2013, 2017 e de 2022, com a finalidade de se ficar com a noção daquilo que se tem passado nos últimos nove anos, referindo unicamente a percentagem dos portugueses que afirmam nunca praticarem qualquer actividade (de acordo com a designação utilizada nos documentos). A evolução dessa percentagem é a seguinte: 2013 – 64%; 2017 – 68%; 2022 – 73%.
Esta última percentagem já era esperada devido à situação da pandemia. Contudo, tudo indica que não se concebia um valor tão elevado, demonstrando a gravidade da situação, que sempre foi inaceitável, mas que agora atinge um grau que causa enorme preocupação. No entanto, é indispensável tomar na devida consideração, que antes da pandemia já se verificava um sério agravamento (- 4%) nos quatro anos que mediaram entre 2013 e 2017. Ou seja, não parece correcto considerar exclusivamente a pandemia como responsável única daquilo que se está a passar, pois de facto limita-se a confirmar a mesma linha de decréscimo que já vinha sendo seguida anteriormente.
Sabemos bem como estas considerações são difíceis de aceitar, tanto mais que o Governo tem lançado constantemente uma autêntica manobra de diversão através das medalhas que alguns atletas vão conseguindo ganhar em provas internacionais, com a finalidade de demonstrar que o desporto nacional está de «vento em popa».
Porém, o conjunto destes dados mostra com plena clareza o falhanço rotundo das estratégias elaboradas desde o célebre Pela sua saúde: mexa-se, passando por uma série de curiosos (!) planos de promoção da actividade física e do desporto, de facto nunca devidamente concretizados e muito menos avaliados. Ficamos muito curiosos com o papel que a Comissão Interministerial para a Promoção da Actividade Física (CIPAF), criada já em 2017, vai desempenhar nesta grave situação, pois foi-lhe cometida a tarefa de «vigilância e promoção da actividade física».
É que em relação a este problema não basta «comprar» uns tantos atletas estrangeiros de grande nomeada, para virem ganhar algumas medalhas capazes de tirarem o País das posições nada abonatórias que tem vindo a continuar a ocupar no contexto internacional. É preciso, antes de tudo, que os políticos que estão no poder compreendam o verdadeiro significado da prática do desporto, especialmente dentro das escolas (o que coloca um problema cultural).
Depois é indispensável criar condições de verdadeira concretização de uma actividade essencial para a formação plena da juventude e que tem sido desviada das suas funções, criando uma situação de autêntico negacionismo que tem posto em causa um direito essencial da grande maioria da população, que é abusiva e falsamente responsabilizada por ela (o que impõe justiça social e atitude de respeito eticamente marcada).