O Cravo na Festa do Avante!

Mafalda Nejmeddine (Cravista e musicóloga que actuou no concerto sinfónico da Festa do Avante! »Música na Palavra de Saramago»)

Através de Saramago, a Festa do Avante! deu palco ao cravo e à música antiga

Já se tornou tradição abrir a Festa do Avante! com o Concerto Sinfónico. Este ano a Orquestra Sinfonietta de Lisboa dirigida pelo maestro Vasco Pearce de Azevedo apresentou um programa diversificado e consagrado ao tema «Música na palavra de Saramago». O programa foi composto por obras primas de compositores inspirados ou referenciados na obra literária de José Saramago. Domenico Scarlatti é um compositor italiano do século XVIII, uma personagem da obra Memorial do Convento que esteve presente no concerto com três sonatas para cravo. E assim o cravo marcou presença, pela primeira vez, na Festa do Avante!.

Para quem não conhece o cravo, costuma-se dizer que «o cravo é o antecessor do piano» por ter sido construído em primeiro lugar e, tal como o piano, é um instrumento de cordas com teclado. A diferença entre os dois instrumentos reside na mecânica que permite fazer a ligação das teclas com as cordas. No piano, as teclas põem em funcionamento um martelo que bate na corda, enquanto que as teclas do cravo acionam um saltarelo que tem na sua extremidade um plectro que belisca a corda. Em Portugal, já existiam cravos pelo menos desde os finais do século XV, mas foi sobretudo durante o século XVIII que a construção e a composição de obras para este instrumento floresceu. Nessa altura, grande parte das músicas escritas para cravo e outros instrumentos de tecla era composta com uma finalidade didática, destinando-se ao desenvolvimento técnico e musical dos aprendizes que os mestres ensinavam em ambiente privado.

Um destes mestres era Domenico Scarlatti, que nasceu em Nápoles, em 1685, e faleceu em Madrid, em 1757. Veio para Portugal em 1719 ao serviço de D. João V, dois anos após ter sido iniciada a construção do Convento de Mafra em cumprimento da promessa do rei pelo nascimento da sua filha Maria Bárbara. Ainda que inicialmente tenha sido contratado para exercer a função de compositor régio, Scarlatti foi posteriormente indigitado professor do Infante D. António, irmão do rei, e acabou por ser professor da Infanta Maria Bárbara, que Scarlatti acompanhou em 1729 na viagem definitiva para Espanha e para quem compôs grande parte das suas sonatas.

No concerto, foram apresentadas três sonatas de Domenico Scarlatti: Sonatas K. 55, K. 9 e K. 141. A letra K faz referência ao cravista e musicólogo Ralph Kirkpatrick que deu a conhecer a obra deste compositor. Destas três sonatas, apenas a Sonata K. 9 pode ser associada a Portugal, por fazer parte de um conjunto de 30 sonatas que foi dedicado ao rei português e publicado em Londres, em 1738, sob o título Essercizi per Gravicembalo. Se for permitido aqui desenhar algum paralelismo entre as características musicais das obras e o romance Memorial do Convento pode-se sugerir que a Sonata K. 55, que inicia com acordes arpejados que sugerem o soar das trombetas e uma alegria frenética, remeteria para o início dessa construção majestosa. Súbito, irrompe o diálogo melodioso entre as personagens de Baltasar e Blimunda. Após um momento de reflexão, um perpetuum mobile (movimento de notas contínuo e rápido) remete para o trabalho contínuo e agitado operado nessa grande construção, o qual, através de repetições melódicas, conduz à apresentação de um motivo repetitivo de carácter folclórico que celebra a festa dos trabalhadores depois de realizadas as tarefas árduas.

A Sonata K. 9 transporta-nos para um ambiente de nostalgia onde a voz de Blimunda é acompanhada pela voz mais pausada de Baltasar, desenrolando em determinadas passagens movimentos de vai-e-vem, como se ambos estivessem a voar na máquina do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão.

O vigor exigido pelo acréscimo do trabalho com vista à conclusão parcial para a cerimónia de sagração da basílica é representado pela Sonata K. 141 através da incessante repetição de notas. Aqui, vê-se simbolizado, de início, o trabalho árduo e uma martelada periódica por meio da repetição de notas marcada por acordes e, seguidamente, o trabalho de picareta reproduzido pela alternância de acordes arpejados que conduz ao clímax. O regresso à repetição de notas, desta vez com um acompanhamento melódico sem acordes, mostra o trabalho contínuo, agora de menor intensidade. Do nada, surge uma escrita baseada na desagregação de acordes apoiada por uma linha de notas repetidas – usualmente chamada de «baixo de tambor» – que, tratada de modo sequencial, é acompanhada por um aumento progressivo da sonoridade, transmitindo a sensação de uma ascensão para alcançar algo. Por fim, através do cruzamento das mãos, surge um diálogo estático e enervante que põe fim, ainda que de forma incompleta, ao trabalho definido para que a sagração da basílica se pudesse concretizar.

Este ano a Festa do Avante! celebrou um escritor português e com ele a música que fazia parte do ambiente sonoro da corte, dos palácios e dos palacetes da aristocracia portuguesa da época. Através de Saramago e da sua visão da música e da literatura, a Festa do Avante! deu palco ao cravo e à música antiga, suscitando a esperança que a maior festa do país seja um lugar para a celebração do património musical português e dos grandes compositores portugueses da época de Scarlatti que estão hoje esquecidos e permanecem desconhecidos.

 



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