Chão da Casa, de João Monge

Domingos Lobo

O poeta João Monge é também autor de poemas cantados por grandes vozes, grupos e compositores da nossa música

João Monge é um poeta singular, tematicamente plural, de uma criatividade que abrange as letras para cantigas, para o fado e para o teatro. Conhecido principalmente pelos poemas que escreve para serem cantados por grandes vozes, grupos e compositores da nossa música como João Gil, Trovante, Ala dos Namorados, António Zambujo; projectos musicais em que esteve envolvido e que marcaram a nossa música ligeira, como Rio Grande, esse retrato desdramatizado dos que migraram para a cidade grande e habitam nos subúrbios, mitigando as saudades do seu Alentejo distante com cartas e avios da família que nele ficou, projecto original que juntou Rui Veloso, João Palma, Tim, Vitorino e João Gil; A Voz e a Alma, recital em que participaram a actriz Maria João Luís e o fadista Hélder Moutinho; autor de peças de teatro como Chão de Água, considerado em 2013 o melhor texto dramático; A Abetarda, pelo Teatro da Terra, interpretado por Maria João Luís e que vimos na edição da Festa do Avante! em 2021; A Lua de Maria Sem, interpretada por Maria João Luís e Manuela de Azevedo; letrista de canções que marcaram o nosso tempo, como O Lado Bom da Saudade, que Luís Represas cantou na cerimónia de transferência de soberania do território de Macau para a China, em 1999, e esse hino de liberdade e luta que é Timor, cantado por Luís Represas na independência de Timor Leste.

Chão da Casa é o mais recente livro de João Monge, livro lançado na nossa Festa da Luta, da Cultura, da Alegria, neste ano de todos os desassossegos. Este Chão da Casa mostra-nos o poeta maior que João Monge é, o poeta da claridade, do verbo límpido, empenhado e sem disfarce. Se neste livro habita o poeta dos grandes momentos da nossa música, o poeta que renovou a linguagem teatral, fazendo regressar o texto, essa matéria lúdica de comunhão com o Outro, à sua essência poética, o autor transpõe em virtuosismo conceptual essas paredes-mestras da sua criatividade. Chão da Casa é, não só, um poema em três actos, uma sinfonia de afectos e de exaltação da memória, de homenagem aos homens e mulheres que lutaram para que o chão da casa, esta nossa casa comum que é o País, fosse poiso seguro, como é um livro didáctico, sereno e exemplarmente implicado.

É uma perspicaz e bem construída metáfora do Partido, dos percursos dos que lhe deram o melhor dos seus dias e vida, das ideias, dos sonhos, do modo como nós, os comunistas, habitamos o tempo e o espaço e tentamos transformar a vida, ou seja, a casa.

O primeiro tempo deste Chão da Casa, A Hora das Gaivotas, começa de modo operático, com A Patética de Tchaikovsky [que] escorre de um velho gira-discos para as paredes do refeitório, num dia em que Em todas as casas há um coração suspenso/e uma janela sobre o mar. Estamos, sabemo-lo, embora o autor o não nomeie, em Peniche, na mais líquida de todas as noites, essa que foi da épica fuga do seu forte-prisão. 10 homens, referenciados pelos seus primeiros nomes, aos quais o mar espalha a sua toalha bordada na praia, aos seus pés.

O segundo acto, Terra, diz-nos das sementes lançadas à terra por uma punhado de homens e mulheres, da casa a inventar, a rua, a escola, a esperança, a Lei suprema da Nação, dos sonhos que irão florir em uma manhã de Abril, com a certeza que se o mau-tempo vier/Estragar a casa que fiz/Junto-me com quem estiver/E volto a fazer de raiz.

O terceiro acto, 100 anos que passaram/100 anos que hão-de vir, é um percurso sensitivo pela história do Partido, pela luta, pela clandestinidade, pelas prisões, pela saga heroica de milhares de camaradas que lutaram e não desistiram, não desistem: - Lembras-te quando foste a Lisboa, à rua da Madalena? – Lembro-me muito bem! Foi há 100 anos mas lembro-me como se tivesse sido ontem.

Aos belos poemas de João Monge juntam-se as ilustrações de Jorge Pé-Curto a fazer deste livro um livro preenchido de sinais, de devir, indispensável.

João Monge e Jorge Pé-Curto mostram-nos o projecto da casa, uma casa onde o chão está a ser aplainado e os alicerces seguros, mas temos muito trabalho pela frente: cabe-nos ainda construir as paredes, as janelas, as portas e o telhado – falta-nos habitar a casa.



Mais artigos de: Argumentos