Que desporto temos? Que desporto queremos?

A. Melo de Carvalho

A edu­cação es­colar tem um papel fun­da­mental na cri­ação de há­bitos de prá­tica des­por­tiva

Porquê esta in­sis­tência na edu­cação es­colar das cri­anças e dos ado­les­centes, na pro­cura das causas do atraso do des­porto por­tu­guês? Sa­bemos que estas são múl­ti­plas e en­re­dadas na his­tória, na fi­lo­sofia do­mi­nante, na cul­tura, na eco­nomia e nas formas de vida e de tra­balho, enfim, na di­nâ­mica so­cial vi­vida. Porém, não é pos­sível deixar de con­si­derar que a edu­cação as­sume, no pre­sente, um papel cru­cial em todo este pro­cesso.

Antes de tudo, é es­sen­cial com­pre­ender que o ser hu­mano passa por di­fe­rentes fases do seu de­sen­vol­vi­mento, desde o mo­mento em que nasce até chegar à ma­tu­ri­dade adulta. Ora, cada uma dessas fases apre­senta ne­ces­si­dades, mo­ti­va­ções e exi­gên­cias, que, sendo di­fe­rentes de uma para a outra, se­guem um pro­cesso evo­lu­tivo que leva o in­di­víduo à posse de ca­pa­ci­dades es­pe­cí­ficas no es­tado adulto. A edu­cação, e neste caso es­pe­cí­fico, a edu­cação mo­tora de­sen­vol­vida através da edu­cação fí­sica e o des­porto es­colar (as­su­mindo-se como uma uni­dade dentro da es­cola), têm como função pri­mor­dial for­necer a res­posta pe­da­gó­gica e ci­en­ti­fi­ca­mente mais ade­quada a cada um destes mo­mentos.

Está bem de­mons­trado através das evi­dên­cias for­ne­cidas pelas re­centes neu­ro­ci­ên­cias, que é da jus­teza dessas res­postas, va­riá­veis de fase para fase em termos de um pro­cesso co­e­rente e de­vi­da­mente fun­da­men­tado, que de­pende o de­sen­vol­vi­mento má­ximo das ca­pa­ci­dades. Sabe-se que os in­di­ví­duos são todos di­fe­rentes em termos das po­ten­ci­a­li­dades ex­pressas nos seus genes (não con­fundir com igual­dade de di­reitos), con­tudo, tra­tando-se ex­clu­si­va­mente de pos­si­bi­li­dades, so­mente um pro­cesso edu­ca­tivo de­vi­da­mente adap­tado a cada es­tádio, pos­si­bi­lita a sua ex­pressão má­xima. Por exemplo, se as li­ga­ções si­náp­ticas (as li­ga­ções entre os ter­mi­nais dos neu­ró­nios entre si) não forem ade­qua­da­mente es­ti­mu­ladas, estão con­de­nadas a es­ti­olar e de­sa­pa­recer, em­po­bre­cendo sig­ni­fi­ca­ti­va­mente o de­sen­vol­vi­mento do cé­rebro, es­pe­ci­al­mente na­quilo que diz res­peito à sua plas­ti­ci­dade, ou seja, à ca­pa­ci­dade em se adaptar aos novos cir­cuitos da rede dos neu­ró­nios criada pelos es­tí­mulos edu­ca­tivos (factor es­sen­cial para o pro­gres­sivo aper­fei­ço­a­mento neuro motor dos atletas).

Ao con­trário da­quilo que é sis­te­ma­ti­ca­mente re­fe­rido, a ac­ti­vi­dade mo­tora, ele­mento es­sen­cial do mo­vi­mento sob todas as suas formas, não re­fere as suas con­sequên­cias uni­ca­mente ao «fí­sico» (mús­culos, ossos, ar­ti­cu­la­ções, co­ração, pul­mões e ou­tras vís­ceras). De facto, é a to­ta­li­dade do ser hu­mano que sofre essas con­sequên­cias (quer po­si­ti­va­mente pela pre­sença de tais es­tí­mulos, quer ne­ga­ti­va­mente pela sua au­sência ge­ra­dora de inú­meras do­enças graves, como p.ex., a obe­si­dade), evi­den­te­mente também e es­sen­ci­al­mente, re­fe­ridas ao sis­tema ner­voso, e a todas as ou­tras ca­pa­ci­dades de­sig­nadas cor­ren­te­mente por in­te­lec­tuais (in­te­li­gência, cri­a­ti­vi­dade, me­mória, pen­sa­mento crí­tico, etc.), emo­tivas e so­ci­a­li­za­doras.

Ora, se aquilo a que aqui nos re­fe­rimos, ou seja, a edu­cação mo­tora, pro­cesso es­sen­cial da edu­cação des­por­tiva, não tomar de­vi­da­mente em con­si­de­ração este con­junto de ele­mentos, não po­de­remos es­perar que se ve­ri­fique o de­sen­vol­vi­mento má­ximo da­quelas po­ten­ciais ca­pa­ci­dades. Isto é to­tal­mente apli­cável aos cha­mados mais do­tados, cons­ti­tuindo a pró­pria es­sência da sua for­mação de longa du­ração ao longo do tempo (cerca de 10 anos!), sendo pro­fun­da­mente pre­ju­di­cados no de­sen­vol­vi­mento das suas ca­pa­ci­dades se tal não for res­pei­tado.

A pro­cura da «base da pi­râ­mide» pra­ti­cada dentro das nossas es­colas, que evi­den­te­mente nada tem a ver com esta pre­o­cu­pação, ex­plica em grande parte, o atraso na for­mação para o alto ren­di­mento. Con­tudo, também ao li­mitar-se a se­lec­ci­onar os mais do­tados através de um mé­todo pu­ra­mente em­pí­rico, que falha na grande mai­oria das es­co­lhas, ex­cluindo se­lec­ti­va­mente todos aqueles que nelas não cabem, é toda a po­pu­lação es­colar que é se­ri­a­mente pre­ju­di­cada na sua for­mação in­te­gral, ou seja, na ex­pressão má­xima das suas ca­pa­ci­dades, na cri­ação de há­bitos de prá­tica para toda a vida e li­qui­dando a con­tri­buição que a prá­tica des­por­tiva edu­ca­tiva po­deria for­necer em todos os sen­tidos da sua per­so­na­li­dade.

Desta forma, com­pre­ende-se bem que esta acção só en­contra pos­si­bi­li­dades de se con­cre­tizar ade­qua­da­mente dentro da pró­pria es­cola, e não em qual­quer outra ins­ti­tuição. To­davia, é es­sen­cial que esta as­suma uma res­pon­sa­bi­li­dade de­ci­siva quando re­cusa, não com­pre­ende ou não con­segue criar, as con­di­ções in­dis­pen­sá­veis para a con­cre­ti­zação deste com­plexo, mas fun­da­mental tra­balho edu­ca­tivo.

 



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