Nova presidência, a mesma política
A Chéquia assumiu, no início do mês de Julho, a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, cujo programa foi apresentado pelo primeiro-ministro checo na última sessão plenária do Parlamento Europeu.
A primeira das prioridades desta presidência, sob a capa da «gestão da crise de refugiados» e da recuperação da Ucrânia pós-guerra, mais não visa do que o prosseguimento da política de confrontação, que só levará ao agravamento do conflito, à perda de mais vidas humanas, a maior sofrimento e destruição. Nem uma única referência à paz, nem à sua necessidade, nem um único apelo ao necessário processo de diálogo com vista a alcançar uma solução negociada para o conflito. Ao invés, apenas o apelo a mais sanções e ao seu fortalecimento e a mais fornecimento de material militar e de guerra. É nesta esteira que a Comissão Europeia apresentou a sua proposta para um sétimo pacote de sanções à Rússia.
A segunda prioridade é aquilo que tem vindo a ser denominado como «segurança energética europeia», ou seja, acabar com a dependência energética de países que «colocam em causa a segurança na Europa». Isto é, redirecionar as dependências para outras latitudes do globo, nomeadamente para os EUA, mais distantes, com soluções mais caras e com maior impacto ambiental.
Mas se algo há a ressaltar neste programa é que ele admite a hipocrisia do discurso de Bruxelas, ao referir que as questões da chamada «segurança energética» são actualmente mais prementes que a tão propalada «transição energética».
Também é elucidativo que, ao mesmo tempo que defende no Parlamento Europeu a resposta europeia à questão energética como a única solução para sair deste labirinto (abordagem que normalmente pressupõe o abrir caminho a novos ataques às soberanias nacionais), internamente, na Chéquia, dias antes da assumpção da presidência do Conselho da UE, o primeiro-ministro tenha defendido o objectivo de tornar o país soberano em termos energéticos nos próximos cinco anos.
Mas as contradições não se ficam por aqui. Noutra das prioridades desta presidência, Uma economia europeia resiliente, ao mesmo tempo que se defende circuitos curtos de abastecimento, por serem mais sustentáveis, também se defende o incremento de acordos de livre comércio com países distantes, como com os EUA ou o acordo com o MERCOSUL.
Se algo há a notar neste programa é que finalmente admite, por acção ou omissão, que a UE não é aquilo de que a têm tentado pintar. Que não é uma UE verde e, muito menos, social.
Não existe, no programa que presidirá à UE nos próximos seis meses, quaisquer referências aos trabalhadores e aos povos, nem aos seus problemas, nomeadamente ao brutal aumento do custo de vida. Nem são, por consequência, apontadas as necessárias soluções, antes se confirma um caminho que é causa desses problemas.
É por essas soluções que agora, como sempre, nos continuaremos a bater.