1863 – Paris no séc. XX, de Jules Verne

Pierre-Jules Hetzel, o escritor e editor que em 1862 publica Cinco semanas em balão, o primeiro livro de Jules Verne, e com ele faz um contrato para a vida para a produção de obras de «ficção científica», recusou-lhe um ano depois a segunda obra, Paris no séc. XX, considerando que teria pouca aceitação por demasiado pessimista. Guardado durante quase século e meio, o manuscrito veio a ser publicado em 1989, três décadas depois do período em que Verne situa a acção. Não se encontra ali um retrato fiel da realidade existente em Paris em 1960, mas sobejam motivos de admiração. Verne antecipa o motor de combustão, o aparecimento do automóvel, o comboio de alta velocidade, os centros comerciais, a era da informática com a comunicação imediata à distância... Mas neste mundo dos avanços da ciência e da técnica cresce a solidão, o ser humano aliena-se e deixa-se escravizar pelas máquinas que cria, as finanças dominam todos os aspectos da sociedade, todos sabem ler mas já ninguém lê. «A instrução deixou de ser o natural meio de despertar almas e de o jovem se reencontrar consigo próprio, para ser uma forma de “construção”, não de carácter, mas de informação assimilada para ser mais uma peça dessa maquinaria económica.» A profecia feita realidade.