A constante ingerência na América Latina
Os países da América Latina, sobretudo aqueles que não alinham - e combatem mesmo - o imperialismo norte-americano, são sistematicamente alvo de intromissão na sua política interna por parte das instituições da União Europeia (UE). O Parlamento Europeu (PE) regularmente propõe e aprova resoluções sobre a situação (dos direitos humanos, obviamente) em Cuba, na Venezuela e na Nicarágua (esta semana, na sessão plenária, o debate ingerencista calha à Nicarágua).
Mas a ingerência do PE não se fica pelos debates e resoluções em plenário. Recentemente, aquando da reunião da Mesa Directiva da EuroLat (a Delegação do PE à Assembleia Parlamentar Euro-Latino-Americana), houve vários deputados do PE que tentaram impedir que um representante da Nicarágua (que actualmente detém a Presidência do Parlatino e, por inerência, está na Mesa Directiva da EuroLat) participasse nos trabalhos.
Igualmente, no mês passado, a Delegação do PE para as relações com o Mercosur (DMer) organizou uma reunião cuja ordem de trabalhos se centrava na troca de pontos de vista sobre a situação política na Venezuela após as eleições regionais e locais de 2021. Acredite-se ou não, um dos oradores convidados foi Juan Guaidó que aparecia - imagine-se - como «Presidente da República Bolivariana da Venezuela e da Assembleia Nacional».
Curiosamente (ou não) sobre a Colômbia, e as perseguições políticas, assassinatos de dirigentes sociais, sindicais, estudantis e camponeses, bem como de massacres vários, que resultam em centenas de assassinatos nesse país, o silêncio é deveras esclarecedor sobre a instrumentalização dos direitos humanos.
Estes são exemplos de manobras perigosas que em nada contribuem para os necessários processos de diálogo entre as instituições da UE e esses países. São manobras que, apesar da persistência, não intimidam nem impedem os países atingidos de se organizarem e de cooperarem entre si. E, por isso, louvamos iniciativas como a que decorreu há dias no PE, com uma troca de pontos de vista com representantes dos países pertencentes à Alternativa Bolivariana para as Américas - ALBA. Nesse encontro, em que os deputados do PCP no PE participaram e que contou com a presença dos embaixadores de Cuba, Venezuela, Nicarágua e Bolívia, reflectiu-se sobre as características e possibilidades deste processo de integração na América Latina, de efectiva cooperação mutuamente vantajosa e de solidariedade entre Estados e povos e com um carácter anti-imperialista.
Da nossa parte, continuaremos a reafirmar que o PE e a UE não estão à margem da obrigação do pleno respeito pela soberania e independência dos Estados, designadamente do direito de cada povo a decidir do seu futuro, livre de ingerências externas.