Pedra Filosofal

Nuno Gomes dos Santos

As can­ções de­nun­ci­aram as tor­turas, as pri­sões, a fome e aju­daram à luta pela li­ber­dade

Na úl­tima cró­nica que es­crevi para o Avante!, falei de Ge­deão e co­mentei o poema Fala de Um Homem Nas­cido, o que deu pano para mangas na ela­bo­ração de um ar­tigo que abor­dava con­teúdos de can­tigas. E, fa­lando de Ge­deão, não re­feri a Pedra Fi­lo­sofal, o que deixou al­guns lei­tores in­tri­gados. Esse «es­que­ci­mento» não foi ino­cente.

Es­crevo, agora, sobre a Pedra Fi­lo­sofal. Tudo terá co­me­çado com a mai­oria dos al­qui­mistas da Idade Média que cor­riam atrás dessa pedra fi­lo­sofal para, com ela, po­derem trans­formar qual­quer metal em ouro ou, mesmo, con­se­guirem o elixir da longa vida. An­tónio Ge­deão (pseu­dó­nimo de um homem de ci­ência cha­mado Ró­mulo de Car­valho) abordou o tema «tra­du­zindo» essa utopia com exem­plos con­cretos que de­fendem a tese de que o sonho co­manda a vida e que é por causa desse sonho do Homem que o mundo pula e avança.

Ma­nuel Freire, um com­po­sitor in­tér­prete de can­tigas com le­tras que são grandes po­emas (de, por exemplo, Si­dónio Mu­ralha, Edu­ardo Olímpio, Fer­nando Assis Pa­checo, José Gomes Fer­reira ou José Sa­ra­mago), ouviu o re­cado de Ge­deão e deu-lhe mú­sica, ob­tendo um êxito es­tron­doso e con­se­guindo o grande ob­jec­tivo de pôr toda a gente a cantar a ge­nial ideia do poeta: apesar de «eles» não sa­berem nem so­nharem, é (como também es­creveu Se­bas­tião da Gama) pelo sonho que vamos.

Há uma ilação fun­da­mental que re­ti­ramos deste so­berbo poema de Ge­deão: «eles» são os ve­lhos do Res­telo, que não acre­ditam nunca nas Índias que, por com elas so­nharmos, vamos, sempre, des­co­brindo o ca­minho que a elas nos conduz. Daí o in­ci­ta­mento ao sonho ou, se qui­sermos, à luta que tra­vámos e con­ti­nu­a­remos a travar para que os nossos so­nhos mai­ores ve­nham, um dia, a ser re­a­li­dade. Porque são esses nossos so­nhos que co­mandam a vida e a His­tória da hu­ma­ni­dade é a prova disso, pese em­bora, por vezes, a len­tidão com que o mundo pula e avança. Porém, se aban­do­nás­semos os so­nhos, se­ríamos cúm­plices na con­ti­nu­ação de um status de opressão e de ex­plo­ração do homem pelo homem, que com­ba­temos «com as armas que temos na mão» e que podem muito bem ser a po­esia ou as can­ções que dis­pa­raram Ary dos Santos, Zeca Afonso, Adriano, Ma­nuel Freire, José Luís Ti­noco, Niza ou Zé Mário, aqui no­me­ados como exem­plos de uma vasta lista de po­etas, au­tores e can­tores que, com pa­la­vras e mú­sicas foram, a seu modo, co­man­dando a vida.

Dirão que não é can­tando que se mudam as coisas. Mas as can­ções de­nun­ci­aram as tor­turas, as pri­sões, a fome, por vezes com grande e ines­pe­rada efi­cácia, do mesmo modo que aju­daram a luta pela li­ber­dade e pela con­quista de me­lhores dias que, porque os so­nhámos, em reu­niões, em po­emas ou em can­ções, acon­te­ceram.

É bom haver quem, es­cre­vendo ou can­tando, não perca de vista essa imagem de um sor­riso de fu­turo que o poeta, sim­bo­li­ca­mente, des­creveu como sendo uma bola co­lo­rida entre as mãos de uma cri­ança.

O que a Pedra Fi­lo­sofal nos conta, se sou­bermos lê-la ou ouvi-la com a atenção que me­rece!



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