Sudão: os três nãos da resistência popular

Carlos Lopes Pereira

Com o recrudescimento da violência na região do Darfur Ocidental, onde se têm registado «conflitos étnicos», agrava-se a situação no Sudão. As forças políticas que se opõem à junta militar no poder denunciam que tais confrontos evidenciam o «fracasso» do governo golpista em «cumprir os seus deveres para com os cidadãos».

Ao mesmo tempo, estão em curso movimentações para «solucionar» a crise política sudanesa.

No final de Abril, enviados dos Estados Unidos da América, do Reino Unido e da Noruega, altos funcionários da França e Alemanha e representantes da União Europeia iniciaram em Cartum conversações com partidos para discutir o retorno a um governo civil. As Forças para a Liberdade e Mudança (FFC, na sigla em inglês) e os Comités de Resistência, integrados pelo Partido Comunista Sudanês, recusaram-se a participar nas negociações com as autoridades golpistas.

As delegações ocidentais mantiveram reuniões com partidos e com os militares para debater a crise política e a possibilidade de «auxílio» económico. A natureza dessa «ajuda» – autêntica chantagem – ficou clara ao saber-se que, se a formação de um governo civil «credível» não avançar, qualquer tipo de apoio financeiro ao Sudão será «condicionado pela comunidade internacional». Sem esse apoio, o país poderia perder milhares de milhões de dólares em «assistência» do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional e o alívio da dívida ficaria «em risco».

Norte-americanos e europeus reuniram-se ainda com membros da iniciativa tripartida das Nações Unidas, formada pela sua Missão Integrada de Transição e Assistência no Sudão (UNITAMS); pela União Africana (UA); e pela Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (IGAD), bloco regional de oito países da África Oriental, incluindo o Sudão.

As FFC e os Comités de Resistência também rejeitaram juntar-se ao diálogo proposto pelo mecanismo tripartido (ONU, UA e IGAD), que vai decorrer entre os dias 10 e 12 de Maio.

Jafar Hassan, dirigente das FFC, esclareceu que só participarão num diálogo que identifique claramente os partidos responsáveis pela crise e faça uma leitura correcta da situação. Sublinhou que não serão parte de conversações que legitimem o golpe. Criticou a vontade do mecanismo tripartido de negociar com os militares responsáveis pelo golpe de Estado de 25 de Outubro e com partidos que foram aliados do ditador Omar al-Bashir, derrubado há três anos pela força das manifestações populares. Confirmou a rejeição categórica das forças revolucionárias em sentar-se à mesa com grupos que apoiaram o golpe de 2021. E insistiu que o diálogo proposto será um diálogo entre golpistas, no qual as forças que rejeitam o golpe não participarão.

De igual modo, os Comités de Resistência, implantados sobretudo em Cartum, tornaram pública a sua firme recusa a envolver-se no diálogo patrocinado pela ONU, UA e IGAD.

Um seu porta-voz, Fadhil Omar, explicou que os Comités de Resistência defendem três nãos – não a negociações, não a parcerias e não à legitimação dos golpistas. Garantiu que o povo perdeu a confiança nas autoridades militares e considera qualquer acordo com os generais a legitimação do golpe e a legalização da violência. E preconizou que a solução da crise no Sudão passa pelo derrube do regime golpista e instalação de um governo democrático.




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