O 25 em 22
A televisão portuguesa em geral, e sobretudo a RTP, fez o que a circunstância pedia e o implícito dever lhe impunha: na data certa, recordou os antecedentes imediatos do 25 e completou essa sua aparente comemoração com imagens do habitual desfile na Avenida da Liberdade, em Lisboa, mais umas fugidias visitas ao Porto e até a outros lugares do País. Deu-se também ao aparente luxo de breves conversas em estúdio sobre o tema. Digamos que cumpriu assim os serviços mínimos que a circunstância recomendava, e a interrogação que porventura nos sobra depois destas iniciativas é a de sabermos se comemorar Abril, e sobretudo se ser digna dele, não imporia à televisão pública, e em verdade também à que não é pública, a adopção de uma mais ampla ementa comemorativa. É certo que é sempre saboroso podermos rever algumas diligências preparatórias do 25, que nunca é excessivo recordar a determinação e a coragem dos que nele se empenharam, mas não seria supérfluo, longe disso, uma espécie de flash back ainda que sumário a explicitar não apenas porque são óptimas a liberdade e a democracia mas também porque são péssimas as ditaduras fascistas e as guerras colonialistas como as que o fascismo português manteve. Porém, mais ainda que essa espécie de complemento informativo, digamos assim, seria necessário, e sobretudo justo, que a TV nos acompanhasse num relance sobre tudo o que antecedeu Abril de 74, isto é, sobre os anos em que muitos dos melhores cidadãos portugueses se aplicaram a fazer uma coisa verdadeiramente heróica que custou caro a muitos deles: resistir. Não é raro, embora não seja muito frequente, que a televisão portuguesa em geral e a RTP em especial nos contem fragmentos da estória verdadeira de resistências antifascistas e antinazis havidas em diversos lugares da Europa antes de 45. Pois bem: ainda que à específica escala portuguesa, também por cá aconteceu a resistência, isto é, a Resistência, também por cá ela teve os seus mártires, e omiti-los ou esquecê-los é mais que uma feia acção e pior até que factualmente os trairmos: é mutilar a história do nosso tempo. Não será de mais que digamos que os resistentes ao fascismo português acrescentaram honra à coragem. O mínimo que nos cabe fazer é lembrá-lo e impedir que o País, isto é, nós todos, o esqueçamos.