No aniversário
A RTP, já uma senhora sexagenária, fez anos mais uma vez e comemorou o facto como é obviamente seu direito e com a falta de brilho que muitas vezes parece ser o seu destino. Ainda assim, porém, parece justificar-se uma reflexão mínima acerca do aniversário e talvez um relance retrospectivo sobre a sua existência.
Muitas vezes nos queixamos da RTP, da quotidiana ementa audiovisual que ela nos serve, quase sempre cheios de razões, talvez não tanto uma vez ou outra, mas o óbvio é que a nossa existência quotidiana sem ela seria outra e seria mais pobre. Melhor ou pior, ela vai trazendo notícias do mundo, do que vai por aí fora. A questão está em que esta
fórmula a abarrotar de tolerância, «melhor ou pior», pode abrigar o factual desmentido à sua utilidade. As notícias ditas do mundo, de um mundo em que também o nosso lugar está incluído, não podem ser quaisquer nem de qualquer relevo, hão-de corresponder a factos significativos e contribuir para o nosso entendimento do que vai por aí fora. Sem o que seriam uma traição com diversas vítimas começando por nós próprios, como aliás bem se entende.
Em tempo de aniversário e correspondente festejo, pois nestas alturas há sempre algum motivo para festejo, é quase impossível escapar a uma revisão ainda que muito sumária dos anos decorridos. Tivemos a televisão ao serviço do fascismo que envenenava as nossas vidas e que acabou por nos lançar na tragédia da guerra colonial em três frentes; tivemos a alegria da reconquista da liberdade com reflexos, não muitos, na televisão que nos falava do país e do mundo com outra desenvoltura; tivemos a expectativa de uma televisão mais coerente com o que havíamos enfim conquistado.
Não se dirá que todas as expectativas se goraram, é certo que o telespectador consciente do que está a testemunhar pode agora respirar sem sentir a indignação a sufocá-lo, mas ainda que com diversos canais onde dantes só estava um muito fica por conseguir, muito fica para desejar. Com maior ou menor grau de adequação, podemos dizer que a televisão que temos, com inevitável protagonismo para a estação pública, vai conseguindo entreter-nos com conteúdos de diversa e irregular qualidade mas não vai muito mais longe que isso. E a questão é que lhe cumpria fazê-lo.
A televisão, o televisor que parece poder ligar-nos com o mundo, diz-nos mais o que lhe mandam dizer que o que é importante que saibamos no tempo e no modo. Por isso, em momento de aniversário, não basta que lhe enderecemos um recado de parabéns e lhe desejemos longa e feliz vida: é preciso, imperioso, que lhe desejemos as melhoras. Para nosso proveito, é claro, mas também para preservação da sua honra.