Protestos populares prosseguem no Sudão
Continuam as manifestações no Sudão para exigir o regresso dos militares aos quartéis e a formação de um governo civil. Apesar da repressão, o movimento popular não abranda a contestação.
Partido Comunista Sudanês e outras forças democráticas recusam negociações com militares golpistas
Uma pessoa morreu e dezenas ficaram feridas em resultado da repressão sobre os manifestantes que exigiam nas ruas de Cartum, no domingo, 20, o fim do governo militar chefiado pelo general Abdel Fattah al-Burhan e a entrega do poder aos civis.
Os protestos foram promovidos pelos Comités de Resistência, uma das principais organizações unitárias anti-golpistas. Recentemente, os militares proibiram manifestações junto do palácio presidencial, da sede do governo e do parlamento.
O Comité Central de Médicos sudaneses informou que um homem de 51 anos faleceu já no hospital, vítima de tiros da polícia anti-distúrbios durante confrontos com manifestantes na capital.
Registaram-se confrontos entre manifestantes e polícias em diversas cidades – sobretudo Cartum, Cartum Norte (Bahri) e Omdurman –, e os militares são acusados de cometer «violações dos direitos humanos» e de utilizar «violência excessiva na repressão sangrenta de manifestantes pacíficos».
Desde Outubro de 2021, quando os militares derrubaram o governo de transição chefiado por Abdallah Hamdok, e quando recomeçaram os protestos de rua, 82 pessoas perderam a vida em choques com a polícia.
O comité de médicos integra uma coligação que se opõe ao Conselho Superior de Transição, denominação da junta de generais que dirige o país desde 2019, após a destituição pelo Exército do ex-presidente Omar al-Bachir, em seguida a meses de protestos populares.
No plano político, dirigentes das Forças para a Liberdade e Mudança (FLM) reuniram-se, no dia 18, em Cartum, com Volker Perthes, representante especial do secretário-geral das Nações Unidas para o Sudão, no quadro dos esforços da ONU para estabelecer um processo político de transição para um governo civil.
«A continuação das violações dos direitos humanos, as prisões arbitrárias e ilegais, as ameaças a jornalistas» e outros crimes, pelos militares, impedem a facilitação do diálogo proposto pela ONU, afirma a FLM. Essa atitude dos generais «confirma a sua abordagem autoritária» e a sua recusa a permitir «um processo político que ponha fim ao golpe de Estado e restaure a legalidade».
Outras forças democráticas, aglutinando sindicatos, movimentos sociais e partidos, como o Partido Comunista Sudanês, os Comités de Resistência e a Associação dos Profissionais Sudaneses – os dinamizadores da Revolução de Dezembro de 2018 – têm recusado quaisquer negociações com os militares golpistas.