Após a Revolução, de Leandro Ceia

Domingos Lobo

Após a Revolução apela à memória e alerta para os tempos em que vivemos

Existem livros que nos convocam, apelam à memória e teimam em alertar-nos, através da análise de acontecimentos históricos contemporâneos, para a consequências que esses períodos, o chamado Verão Quente de 1975, ao caso, tiveram, e têm, nos tempos rapaces que vivemos, dizendo-nos que este tempo, o hoje e agora, será consequência de outras derivas, longínquas, com mais de quatro décadas, que os protagonistas da história política e social no Portugal de hoje têm fundas ligações ao que o País viveu, e sofreu, nesse período histórico.

Mais de duas gerações após os acontecimentos desses dias de brasa, as políticas, e as principais formações partidárias que comandaram os destinos do País a partir do 25 de Novembro de 1975 (PS e PSD, com e sem a muleta do CDS), permanecem as mesmas, adaptadas às variantes do tempo e circunstâncias. O fundo ideológico que as gerou, o que defendiam há 47 anos permanece, nas suas linhas gerais, intacto. Com algumas perversões, chocantes, à mistura, como o aparecimento público de figuras gradas saídas desse período negro e ligadas a partidos que puseram o País a ferro e fogo (MDLP/ELP), que se instalaram nos órgãos de comunicação social e debitam, sem contraditório, o seu ódio de classe aos partidos de esquerda, ou a chegada ao Parlamento de grupos que arregimentam o pior que esse período trouxe à tona, emergindo sem máscara, com um discurso de afrontamento ao regime democrático, das sombras nevoentas do salazarismo.

Após a Revolução, de Leandro Ceia, fala-nos de tudo isto e acrescenta o fundo baço de uma História ainda por fazer, ou seja, vai às origens históricas da sua gestação, apelando à memória e impondo-lhe outras derivantes laterais, mas importantes, para a compreensão integral desses tempos. Os primeiros capítulos começam por nos dar um retrato impressivo do Portugal salazarista, dos meandros da polícia política, dos seus métodos, da opressão generalizada que o regime impunha aos mais fracos, aos trabalhadores e ao povo miúdo, da Guerra Colonial que ceifou quase dez mil vidas de jovens que faziam falta ao nosso desenvolvimento e serviram apenas como carne para canhão de políticas ultramontanas e de retórica pífia, envolvendo nesse desastre toda uma geração e os nossos irmãos de África.

É um retrato vivo, acutilante, sem cedências, com uma linguagem crua e crítica, demolindo com essa poderosa arma, a das palavras certeiras e a sageza da sua usança, o edifício feroz e hipócrita ungido por Salazar e Caetano ao longo de uma noite imensa de 48 anos. Também nos diz, com um clamor de orgulho, sobre os que lutaram e resistiram, esse punhado de homens e mulheres que nas sombras ou nos cárceres, tornaram possível a manhã clara desse Abril nosso.

A parte mais substantiva deste texto é, como o título indica, aquele que diz respeito ao período do pós-25 de Abril e a todos os acontecimentos que se lhe seguiram. Da alegria solidária do povo nesse fecundo e memorável 1.º de Maio às pérfidas traições que foram perpetradas dias depois; a contrarrevolução, os jogos de poder, a encenação do caos. Também o 11 de Março da esperança renascida, e as armas do medo a corroeram, com prédicas e luto, fogo e morte, os pilares da liberdade conquistada em Abril. De tudo isto nos conta, com arguto discurso, que investe no cerne da perfídia, Leandro Ceia.

Num dos capítulos finais, com o título A Ofensiva das Larvas, escreve o autor, penetrando o seu discurso no «caruncho» conspirativo que estabeleceu os mecanismos de retrocesso político e civilizacional que se seguiu ao 25 de Novembro: «A crosta tem um subsolo que esconde, porém, a rua oculta o que mostra. Os transeuntes vão, vemo-los; com eles vai o pensamento, oculto. Vemos os actores no palco; não se revelam os bastidores. E menos ainda lobrigamos o caruncho roendo as tábuas.» A esperança reside nos que, por medo ou pelo estupor da vida, não se expõem, mas o pensamento justo está lá, habita onde os próceres do retorno, por mais propaganda e malabarismos retóricos, não conseguirão demover: ninguém poderá cortar a raiz ao pensamento, disse-nos Carlos de Oliveira.

Com cerca de 20 títulos, todos em edição de autor, situação que limita o acesso do grande público a esta invulgar torrente narrativa que inclui romances, teatro, memórias, etc., a escrita de Leandro Ceia permanece num nicho a que só acedem aqueles que estão mais perto do autor e que o admiram. Nestes dias incertos esta memória viva, este reservatório de vivências que dizem de nós o que já esquecemos, e precisamos de tornar actuante, exigem outra luz, um mais vasto auditório.




Mais artigos de: Argumentos

Excitação

No passado domingo, também uns dias antes e porventura uns dias depois, os momentos noticiosos da TV surgiram impregnados de uma detectável excitação: estar-se-ia talvez à beira de uma guerra na Europa, a Leste, e dir-se-ia que essa eventualidade, aliás alegremente explicitada por um ou dois dos apresentadores de...

Em defesa de uma estratégia nacional de segurança hídrica

O País, que já em Janeiro tinha vastas áreas em seca extrema e com um teor de água no solo no ponto de emurchecimento permanente, enfrenta a perspectiva de uma crise por falta de água em funções essenciais, ainda mais grave do que na seca de 2005, porque a capacidade dos serviços públicos,...