Excitação
No passado domingo, também uns dias antes e porventura uns dias depois, os momentos noticiosos da TV surgiram impregnados de uma detectável excitação: estar-se-ia talvez à beira de uma guerra na Europa, a Leste, e dir-se-ia que essa eventualidade, aliás alegremente explicitada por um ou dois dos apresentadores de noticiários, surgia como uma perspectiva apetitosa. Tratava-se em primeira linha da questão da Ucrânia e, em consequência, da eventualidade de a tensão surgida em torno dessa região se encaminhar para uma derrota pelo menos política para a Rússia, potência que ainda não se libertou do estigma de ter sido URSS. Como é sabido, a Rússia já não é comunista, já não é solidária com os comunistas que subsistem um pouco por todo o mundo e teimam na sua luta, mas ainda assim Rússia e russos continuam a ser olhados com desconfiança por muitos que ainda não se terão restabelecido do susto que tiveram em anos ainda próximos. A julgar pelo que na TV se viu e ouviu agora, estar-se-ia à beirinha de uma acção militar desencadeada por polacos, sendo sabido que entre polacos e russos há históricos desentendimentos que poderiam tornar plausível um confronto. Não se viu nos televisores nenhum apresentador de notícias a esfregar as mãos de contente, mas não é absurdo imaginá-las, a essas mãos, pelo menos em sentido figurado.
Se tudo correr bem
Embora pareça absurdo e/ou de facto o seja, diversos e continuados sinais apontam para a hipótese de ainda não estar extinta, bem pelo contrário, a espécie biológica que se caracteriza pelo sonho de assistir à destruição e humilhação da Rússia, não pelo que ela foi e já não é, mas sim como justo castigo por ter sido durante décadas um lugar onde uma grande esperança se sediara. Parece excessivo e disparatado falar em castigo por uma ameaça afinal parece que já extinta, mas a questão é que nisto de esperanças a capacidade de sobrevivência é tal que sempre regressam mesmo que pareçam defuntas: é desta característica que decorre a sua força e é dessa força que resultam todos os avanços. Ora, dir-se-ia que o semblante de um ou outro teleapresentador se iluminou perante a notícia de que os polacos estariam na disposição de atacar e avançar para Leste. É claro que não entrariam em Moscovo e que não se tratava de devolver Vladimir Putin à prisão onde aliás ele já esteve, mas havia se ser saboroso: trata-se de russos que ainda se lembrarão do socialismo real (com todos os defeitos que teve mas com todos os projectos que alimentou), mais vale mantê-los o mais longe possível. Que os polacos tenham marchado para Leste, ainda que apenas uns quilómetros, significou recuo dos russos e um reforço do assumido movimento da Ucrânia para se transferir para o Atlântico Norte num espantoso feito geopolítico. Compreendem-se o tom e o semblante do apresentador. Por estas e por outras, se tudo correr como é justo, há-de ser recompensado.