Rússia exige segurança face a NATO e EUA
A Rússia insiste na abertura de negociações para garantir a sua segurança perante o contínuo alargamento da NATO e a crescente agressividade deste bloco político-militar tutelado pelos EUA. As propostas que apresentou não obtiveram resposta.
Moscovo insiste em negociações com os EUA sobre garantias de segurança
No dia 17, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, tornou públicas as duas propostas de acordos enviadas às autoridades norte-americanas: o «Tratado entre os EUA e a Federação da Rússia sobre as garantias de segurança» e o «Acordo sobre as medidas para garantir a segurança da Federação da Rússia e dos Estados membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte». Juntas, prevêem travar qualquer novo alargamento da NATO, nomeadamente à Ucrânia, e impedir a sua acção belicista junto às fronteiras russas. Até ao momento, os EUA não responderam.
Esta iniciativa dá expressão concreta ao que a Rússia vem reivindicando: a abertura de negociações imediatas com os EUA e a NATO relativas à segurança do país euro-asiático, que tinham já sido propostas por Vladimir Pútin no início do mês, na videoconferência com Joe Biden.
Dia 21, falando numa comissão do Ministério da Defesa, Pútin considerava «muito preocupante a acumulação de concentrações militares dos EUA e da NATO junto das fronteiras da Rússia, assim como a realização de exercícios em grande escala, incluindo os não planificados».
O presidente russo referiu-se ainda à deslocação de elementos do sistema anti-míssil dos EUA para perto da Rússia: «Há lançadores de mísseis Mk-41, adaptados aos sistemas de ataque Tomahawk, colocados na Roménia e planeados para serem instalados na Polónia». «Se esta infra-estrutura avançar, se os sistemas de mísseis dos EUA e da NATO aparecerem na Ucrânia, o seu tempo de voo até Moscovo será reduzido a 7-10 minutos, e se colocarem armas hipersónicas, a 5 minutos», advertiu, qualificando esta situação de «grave desafio para a segurança da Rússia».
Cerco tem décadas
A ameaça de escalada de confronto, com a concentração de forças militares ucranianas na região do Donbass, em frontal desrespeito pelos Acordos de Minsk e com o incentivo dos EUA, da NATO e da União Europeia, foi a causa próxima do mais recente agravamento da tensão na região. Mas o problema é mais profundo e radica no autêntico cerco militar que a NATO vem impondo à Rússia desde a década de 90 do século XX, que não parou de se acentuar.
Apesar das garantias dadas pelos EUA de que a NATO nunca se estenderia para além de Berlim, na altura do desmantelamento do Pacto de Varsóvia, os alargamentos não tardaram: Polónia, Hungria e República Checa foram integradas em 1999; Bulgária, Estónia, Letónia, Lituânia, Roménia, Eslováquia e Eslovénia em 2004; Albânia e Croácia em 2009, Montenegro em 2017 e Macedónia do Norte no ano passado. Entre os países que a NATO pretende colocar sob a sua alçada contam-se a Ucrânia e a Geórgia.
Este alargamento significou a disseminação de bases e contingentes militares junto às fronteiras da Rússia e a instalação de sistemas de mísseis capazes de atingir o país em pouco tempo. Acrescem a presença de submarinos nucleares norte-americanos junto à Noruega, o reforço da presença naval da NATO no Mar Báltico e no Mar Negro, o voo de bombardeiros estratégicos com capacidade nuclear e as frequentes manobras militares cada vez mais próximas da Rússia.
Não pouco relevante é, ainda, a retirada dos EUA de tratados internacionais de controlo armamentista, como o Tratado de Céus Abertos ou o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermédio. Este último, celebrado em 1987 entre os EUA e a União Soviética, significou a retirada de centenas de mísseis (nomeadamente norte-americanos) de vários países da Europa, que os EUA dão agora mostras de querer reinstalar.