Que desporto temos? Que desporto queremos?
A «qualidade» da prática desportiva depende das condições concretas
Porquê uma tão grande preocupação com o desporto? Na actualidade, as críticas a esta actividade são correntes, acusando-a de fazer parte do processo alienador dos indivíduos em geral, fomentadora da violência, viciada fortemente na corrupção, e constituir um elemento anti-cultural e anti-educativo.
Porém, num sentido decididamente contrário, tradicionalmente o desporto é considerado como uma actividade de grande capacidade educativa, garantindo a melhoria da saúde dos praticantes, a educação do carácter, o desenvolvimento de um vasto número de capacidades (desde as qualidades físicas, até ao processo de sociabilização), constituindo um importante factor de integração social e de preparação da juventude para o embate com a vida social marcada por uma competição feroz.
A contradição entre as duas correntes de pensamento aqui sintetizadas não pode ser maior. Então em que se fica?
A questão é esta: nenhuma delas tem razão na forma como coloca a sua perspectiva. É evidente que a prática desportiva tem consequências várias e variáveis de indivíduo para indivíduo. Todavia, essas consequências não se exprimem automaticamente através da prática. Por exemplo: os defensores da segunda perspectiva consideram que a prática em equipa garante a aquisição do processo cooperativo, frequentemente apresentado como justificação para a presença da competição. Ora, acontece que muitos desses praticantes integram grupos de jovens que, de forma frequentemente bem organizada (os grupos de hooligans), atacam os grupos rivais, travando autênticas batalhas e perpetrando as mais graves desordens. Os exemplos podem multiplicar-se.
Em relação à primeira opinião, os seus defensores desintegram completamente a questão do desporto e suas «doenças», como frequentemente designam os fenómenos de violência, corrupção, doping, mercantilização desordenada das características gerais da sociedade actual. Na verdade, estas «doenças» são essencialmente diferentes daquelas que caracterizam a vida da sociedade em geral?
Vejamos: em que se diferencia a violência dos hooligans da violência familiar em que muitas mulheres perdem a vida? E a questão das «violências» seguiria por aí fora se tivessemos espaço, ainda que não se possa ignorar a violência exercida nos locais de trabalho, pela precariedade e pelos despedimentos.
Fenómeno ainda mais estranho diz respeito ao doping. Este surge com frequência entre os atletas, causando um grande movimento de indignação. Contudo, o doping é prática frequente entre os alunos que vão a exame e, apesar disso ser conhecido, não se verifica nenhuma reacção ao facto.
Quanto à fantástica mercantilização que se verifica em certos desportos, como separá-la do processo geral de tudo se transformar em objecto de consumo mercantil, desde a cultura e a educação, à saúde e ao tempo livre?
Porém, é importante tomar em consideração que tudo isto se refere ao chamado «desporto espectáculo», de alto rendimento profissional, sistematicamente promovido pelos média.
Sem milagres
A questão é esta: o desporto não possui nenhuma qualidade específica em si mesmo. A «qualidade» da sua prática depende das condições concretas do ambiente, dos objectivos e das formas como é praticado. Nenhuma dessas qualidades surge automaticamente da própria prática. Por exemplo, no processo de formação desportiva das crianças, adolescentes e jovens, não se verifica nenhum processo automaticamente educativo. Na verdade, não é a prática desportiva que é «milagrosamente» educativa, mas sim o processo formativo utilizado pelo educador. É este que garante a utilização verdadeiramente educativa das enormes potencialidades que o desporto transporta em si mesmo.
Isto impõe a indispensável presença do educador devidamente formado, na medida em que é sobre ele que recai a responsabilidade da validade educativa dos efeitos da prática do desporto.
O que constitui um dos aspectos mais importantes que integram os dois problemas fundamentais do desporto português.